Este sítio é de visita obrigatória e há um dia em que não pagam para entrar

Há muitos turistas que ainda hoje vêm a Coimbra e não vêm ao criptopórtico que devia ser o ponto de partida para uma visita à cidade, para compreender a evolução, a malha urbana, as épocas que se sucederam, diz Ana Alcoforado. Já para não falar de quem cá mora. A directora do Machado de Castro recebe-nos no Museu Nacional e fala-nos dele como uma mãe de um filho, com os olhos a brilhar e um sorriso rasgado a acusar orgulho e devoção incondicionais. Especializada em Administração Pública mas formada em História, foi curadora das colecções de Escultura e Mobiliário antes de assumir o comando da instituição a tempo da reabertura integral ao público em 2012, depois de uma longa temporada encerrado para obras de requalificação e ampliação. Começámos a visita ao museu que deve o nome àquele que foi um dos maiores escultores portugueses no século XVIII e XIX, Joaquim Machado de Castro, logo pelo criptopórtico.  
 Apesar de ser um circuito independente, o criptopórtico é a base do Museu Nacional de Machado de Castro (MNMC) e a mais importante construção romana conservada em Portugal. É  importante explicar o edifício, diz Ana Alcoforado, e descemos com ela até às galerias subterrâneas para depois voltar a subir e explorar as colecções permanentes: Escultura, Pintura, Ourivesaria, Joalharia, Têxteis, Desenho, Cerâmica, Mobiliário e Oriental. O percurso precisa de, pelo menos, uma manhã para ser visto com calma, mas vai sendo inteligentemente intercalado com pausas em bancos e janelas estrategicamente rasgadas sobre a cidade que abundam por todo o edifício, obra do arquitecto Gonçalo Byrne. O museu é tão extenso que as pessoas chegavam a meio do percurso e desistiam, por isso trabalharam-se as zonas de paragem e a iluminação para não haver momentos mortos nem cansaço extremo, nota a directora. Vamos a isto?

1. Criptopórtico

Foi construído no século I, época do imperador romano Cláudio, mas as últimas escavações permitiram perceber que houve um anterior, da época de Augusto. A cidade terá ganho importância e crescido por isso foi preciso aumentar o Fórum, explica Ana Alcoforado. Os romanos tinham cálculos precisos para determinar o centro das cidades e o facto de aqui calhar numa colina não os impediu de construir esta estrutura muito importante e absolutamente única em toda a Península Ibérica e que permite conhecer o desenvolvimento de Coimbra desde a sua origem. Era aqui que ficava o Fórum, a sede da vida política, administrativa e religiosa de Aeminium, que era como a cidade se chamava na altura. Só se passou a chamar Coimbra depois de o bispo se ter transferido para lá de Conímbriga e levado o respectivo nome, entretanto adaptado. Arcos, pedra emparelhada, tijolo, telha, andar pelo criptopórtico é uma aula viva de Construção, Arquitectura, Engenharia e Urbanismo, além da arte nas lápides funerárias e esculturas como as cabeças de imperadores. Tudo delicadamente iluminado. É relativamente fácil andar lá em baixo e há um elevador de acesso para pessoas com mobilidade reduzida.  

2. Escultura

Na segunda metade do século V, quando a cidade foi tomada por invasores germânicos, o Fórum caiu em desuso e ruína. Muito mais tarde deu lugar a igrejas, como a de São João de Almedina (que continua encostada ao Museu) e foi residência episcopal. Só em 1912 é que passou para as mãos da Câmara Municipal de Coimbra e foram feitas muitas intervenções até à mais recente, um século depois, de 2004 a 2012. A visita ao Museu propriamente dito começa no piso 0 com os vestígios dessas e outras igrejas, como os capiteis do século XI e XII. Eles sintetizam aquilo que é o vocabulário de cada uma das épocas, como o Românico de Coimbra que é muito conhecido, diz Ana Alcoforado. Mais à frente, passeia-se por entre esculturas notáveis como o Cavaleiro Medieval, a Virgem do Ó e o Cristo Negro e a impressionante Capela do Tesoureiro que João de Ruão fez para o Convento de São Domingos, e que o arquitecto Gonçalo Byrne recolocou dentro do Museu através de um jogo de paredes e cores. É muito bonita a relação de espaços que foi uma coisa que pedimos, que o Museu não fosse dividido em cubos que se fechassem sobre si, que os visitantes não tivessem a sensação de estarem sozinhos, conta a directora do MNMC. O arquitecto conseguiu fazer isso de forma quase sublime, eu acho, como as janelas para a cidade que a trazem para o museu, costumo brincar que é a cidade tornada museu - há muitas subtilezas, remata. O projecto ganhou o prémio Piranesi/Prix de Rome em 2014.  

 

3. Pintura portuguesa e ourivesaria

Entre peças de escultura em madeira vai começando a aparecer a pintura, também sobre madeira e, mais tarde, sobre tela. A Senhora da Rosa é uma das peças mais antigas da colecção. Foi dos primeiros casos polémicos da intervenção de conservação e restauro em Portugal, conta Ana Alcoforado. É que foi encontrada por baixo de uma outra pintura renascentista do século XVI, mas como era anterior (séc. XV) decidiram mantê-la sob pena de perder a que estava visível inicialmente. Josefa de Óbidos é a única pintora mulher representada. Para mim a pérola das pérolas é esta Santa Maria Madalena (c. 1650), parece um (William) Turner, não é? E, com esta, Ana Alcoforado volta a levar-nos para junto de uma janela, desta vez com vista para o recentemente requalificado Largo de São Salvador. Como o museu demora muito tempo a percorrer há estes momentos de pausa em que a pessoa pode descansar e está a conhecer um bocadinho melhor a cidade, diz a directora. A luz entretanto fica bem mais baixa porque entramos na Ourivesaria e o protagonismo agora é dos cálices, caldeirinhas e cruzes de prata, ouro, cristal de rocha e pedras preciosas. O Tesouro da Rainha Santa Isabel é um dos pontos mais visitados do museu, e também há Joalharia com colares, brincos e pendentes, mas é na ala superior, do século XVII e XVIII, que está o ex-libris: a monumental Custódia que estava dentro da Igreja de São João de Almedina. O arquitecto construiu este varandim a pensar nela, para reforçar o efeito cenoráfico, explica a directora do MNMC. Há várias peças do tesouro da Sé de Coimbra, cada uma com uma história, entre elas a curiosa Cruz Relicário de S. Francisco Xavier. Reza a história que quando São Francisco estava em missionação nas ilhas Molucas levantou-se uma tempestade e ele terá arrancado a cruz que trazia ao peito e passado nas águas; o mar serenou, mas ele perdeu a cruz, e quando voltou a terra ela ter-lhe-à sido trazida por um caranguejo, explica Ana Alcoforado.
 

4. A Última Ceia

É a sala que estamos a trabalhar mais do ponto de vista da internacionalização, porque é um conjunto escultórico que qualquer museu da Europa gostaria de ter, diz Ana Alcoforado ao chegarmos à sala com o trabalho do renascentista Filipe Hodart. É uma Última Ceia com Cristo e os Apóstolos feitos em barro cozido, inspirados em figuras populares que teriam sido personagens conhecidas do quotidiano do extinto Mosteiro de Santa Cruz (onde hoje ficam a Câmara Municipal e outras entidades), para o qual a obra foi executada. Sabemos tudo: quanto custou, de onde vem a terracota, de que tamanho era o forno, mas não sabemos mais nada a não ser que foi destruído, explica a directora. As peças tinham sido levadas para Lisboa e o primeiro director do MNMC, António Augusto Gonçalves, resgatou o conjunto e recuperou ele próprio algumas das obras que datam de cerca de 1530. Este conjunto traz-nos um movimento muito ligado à escultura italiana, perfeitamente contemporâneo de Miguel Ângelo e a Rafael, aliás se olhar bem aquele rosto faz lembrar Leonardo (Da Vinci), aponta Ana Alcoforado. Há outra sala imperdível de escultura onde, entre outros, podem ver várias obras do importante escultor beneditino Frei Cipriano da Cruz. Entre elas está uma enorme Pietá do século XVII. Mais acima, de volta à altitude e luz natural, no piso 1, fica a sala temática com obras do Norte da Europa. Aqui há uma janela incrível com vista para o rio e o cimo da Sé Velha. Há obras sobretudo de arte flamenca, de importação ou feitas em Portugal por artistas de lá. Uma particularidade destas salas é que algumas peças estão expostas de forma a notarem-se pormenores como as marcas das oficinas onde foram feitos ou dos instrumentos que foram usados para fazê-las, nomeadamente nos retábulos. Segundo a directora, o objectivo é permitir olhar as peças do ponto de vista da sua construção e materialidade, porque às vezes há informações que são muito importantes e que ajudam a compreender a evolução em termos da História da Arte.  

 

 5. Mobiliário, Desenho, Cerâmica, Têxteis e arte Oriental

A visita continua com Cerâmica, onde entre muitas peças desde a loiça ao azulejo, há uma vitrine especial, ao fundo, com um conjunto que se destaca. São azulejos didáticos que estavam no Colégio de Jesus e que, no fundo, eram os powerpoints da época, atira Ana Alcoforado. Têm desenhos de Astronomia, Física e Matemática e (mesmo!) usados nas salas para ilustrar o que os professores explicavam. Continuando pelo edifício fora, agora já contornado a praça que se vê no exterior (onde ficam a fonte e os claustros), podem ver Mobiliário do século XVI ao século XIX, de estilos tão distintos como o manuelino, filipino, renascentista, barroco, roccaile e neoclássico; nos Têxteis há sobretudo pluviais e outras vestes de sacerdotes ou que serviam para adornar as igrejas. No Desenho podem ver apontamentos, projectos e retratos, da Reforma Pombalina, por exemplo, e uma das colecções de arte oriental pertenceu ao escritor Camilo Pessanha, que era de Coimbra e viveu e morreu em Macau em 1926.

6. Loja e Loggia

O Museu Nacional de Machado de Castro justifica mais do que uma visita, qualquer que seja a idade ou gosto do visitante, e pode incluir um almoço ou lanche naquele que é, provavelmente, um dos espaços de restauração com as melhores vistas da cidade, o Loggia. Ao Domingo há brunch por 15,50€ e a entrada no museu é excepcionalmente grátis durante a manhã e até às 14h. Também vale a pena espreitar a loja, onde além do merchandising do museu e inúmeros livros sobre o que viram (e não só), encontram jóias e loiça de Coimbra que podem ser o presente que andavam à procura para alguém especial. Podem ver os detalhes sobre o espólio e informações sobre horários, preços, exposições e eventos esporádicos, como visitas guiadas e roteiros temáticos aqui. De resto, a aposta da direcção é a de que o museu seja vivido pela comunidade, por isso por estes dias há concertos e bancos coloridos no exterior, feitos por voluntários locais, para se sentarem nos claustros a apanhar sol. Fica a dica para um dia destes.

Texto e fotos: Filipa Queiroz

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