Já provaram esta maravilha de Ovar?

Não é segredo nenhum que esta redacção é gulosa. Não conseguimos resistir à tentação de uma boa sobremesa ou um petisco doce (ai, um pudim das Clarissas, um pastel de Santa Clara, uma fatia de bolo de Ançã!) e nem sequer dividimos o mal pelas aldeias; é mesmo um para cada pessoa. Quando aterrou um convite para conhecermos o processo de fabrico do Pão de Ló de Ovar, as barrigas bateram palmas e acedemos - tudo em nome dos nossos leitores, a quem queremos prestar informação com conhecimento de causa.

No dia acordado, rumámos à fábrica Cardoso - Casa do Pão de Ló de Ovar Genuíno onde fomos recebidas por Palmira Cardoso que põe as mãos na massa (literalmente) desde 1973. O pão de ló foi aprimorado porque teve a sorte de receber de uma senhora a receita mais antiga, muito saborosa. Nos primeiros tempos, produzia na confeitaria instalada no n.º 91 da Rua Dr. José Falcão, em Ovar, mas o volume de encomendas justificou a abertura da fábrica. Hoje em dia, o trabalho de gestão e produção na fábrica é dividido por Palmira, pela filha e pelo genro, Manuel Soares.

Começámos por ver a sala que guarda as formas de barro que já foram centenas (milhares?) de vezes ao forno. Vêm de Barcelos e têm diversos tamanhos (de 1,5kg, 1kg, 700g, 500g) e ficámos a saber que, na altura das festas, os ovarenses gostam de ter bolos de 2kg em cima da mesa. Ingenuamente perguntámos onde se lavam as formas e Palmira explicou-nos que não se pode lavar o barro, raspa-se; o barro lavado parte mais rápido. Metemos o nariz noutras divisões e vimos os ingredientes principais (açúcar, farinha e ovos) arrumados, à espera da magia que os transforma no doce mais famoso de Ovar. 

Um barulho ritmado chamou-nos à atenção: era uma máquina que veio da República Checa e que pode partir até 3200 ovos numa hora. Dali seguiu uma enorme taça com claras e gemas para a sala do lado, maior, onde se encontram diversas máquinas de cozinha e os fornos. As batedeiras industriais começaram a bater os ovos que triplicaram de volume, ganharam corpo e transformaram-se numa massa fofa de cor amarela clara.

As máquinas até podem ajudar nos processos mecânicos mas percebemos que o segredo está na gestão que se faz na preparação de cada bolo - e Manuel dançava pela divisão e ía controlando o tempo, o cheiro, a cor: olho para a cor dele, eles falam comigo só com o cheiro. Reparámos que usa um auricular: num ouvido ouço as pessoas, no outro é Metallica. Se calhar é este o truque. 

O cheirinho da primeira fornada já se tinha espalhado pela fábrica e as formas estavam forradas com papel que ía embrulhar a próxima leva de pão de ló. 40 minutos no forno e saíram os bolos que foram transportados para o ponto de embalagem, uma divisão onde se guardam as caixas com o design característico da Casa do Pão-de-ló Cardoso. Se a jornada de trabalho for completa, chegam a sair cerca de 40 fornadas de pão de ló.

Depois da cozedura, há um período de descanso e os bolos cozem mais um pouco no calor residual da forma. Palmira fez-nos ver que é preciso haver uma certa queda no volume do pão de ló, senão não está bom. Também há preceito na altura de comer: devem tirar o papel todo e servir o pão de ló à fatia. Acompanhámos a prova com vinho do Porto mas há outras combinações vencedoras como uma fatia de queijo.

O Pão de Ló de Ovar é um dos doces portugueses que vão ser votados na eleição das 7 Maravilhas Doces de Portugal. A eleição das 7 Maravilhas de Portugal é um projecto que nasceu em 2007 e promove concursos que têm escolhido, ano após ano, os melhores representantes de cada aspecto da identidade nacional: o património histórico, em Portugal e de origem portuguesa no Mundo, a natureza, as praias, as aldeias, a gastronomia, e agora chegou a vez dos doces.

Depois da fase de candidaturas, foram seleccionados 7 candidatos por distrito ou região autónoma. A fase seguinte decorre entre Julho e Agosto e, ao longo de 10 semanas consecutivas na RTP1, em que serão realizados 20 programas em directo, podem votar numa das 140 doces maravilhas finalistas. Os doces do distrito de Coimbra que vão a votação são o arroz doce do Baixo Mondego, as arrufadas de Coimbra, o bolo de Ançã, a escarpiada de Condeixa, o pudim das Clarissas, o pastel de Tentúgal e os pastéis de Santa Clara.

Qual o vosso doce português preferido?

Texto e fotos: Joana Pires Araújo

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Inês Fernandes
29.06.2019

Voto no bolo de Ançã!! Então aquecido e com manteiga ou creme vegetal…maravilhoso!!