Susana China: “Tenho muito orgulho e gostava que Coimbra fosse mais aberta.”

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Susana dá graças a Deus pelo sítio onde nasceu. Ouça, é que não mudava. Gostou da escola onde andou, da família onde cresceu, de jogar ao berlinde, de jogar à macaca, de saltar à corda e ouvir a mãe a chamar: Meniiiiinas, venham para caaaaaasa! Não tinha telefone fixo e era aquele sossego, aquela liberdade. Susana nasceu China, pelo lado do pai, numa aldeia que, não sabe bem porquê, mas fazia lembrar a do Astérix e Obélix. Era tudo muito dado à cultura, fazíamos peças de teatro mais do que uma vez por ano, mas peças de 3 actos, com cenários e toda a gente envolvida. 

Toda a gente que é toda a gente de Bruscos, freguesia de Vila-Seca em Condeixa-a-Nova, onde toda a gente a conhece e não é por ser cantora. A família é muito grande e quando vai até lá é Susana ou mesmo Suse, a filha da Fernanda e do Luís; do Nuno, da Carmita e do avô Ramiro. Há intimidade mas sem haver devassa da intimidade e é muito fixe, é fixe a gente ter um poiso que é físico mas sobretudo emocional. 

Na família todos tinham jeito para cantar e dançar, nunca se destacou. Em casa não se ouvia muita coisa, se calhar porque era pós 25 de Abril e a mãe se queixava que já não se aguentava música de intervenção na rádio, mas o pai lembra-se que gostava muito de Maria da Fé. Cantarei até que a voz me doa. Se calhar foi presságio. Nunca tinha pensado nisso. 

Coimbra era longe. Lembro-me de ir passar férias à Figueira, andava na escola primária, e o carro ia cheio, até almofadas. Se fosse hoje, ai que multa! Era uma coisa espectacular. A mãe sempre foi dona de casa, o pai era motorista de camiões. Ainda hoje fica muito irritada quando se fala mal dos camiões. Tem dois irmãos, uma mais nova e um mais velho. Havia chatices, havia o normal, e quem caía levantava-se, era a vida. Não podemos voltar atrás, mas acho que hoje em dia há uma preocupação demasiadamente proteccionista do indivíduo e isso incomoda-me, não sou um pássaro de gaiola. Mas Susana até protegia, assumia as culpas dos disparates dos irmãos, por exemplo, para evitar conflitos. 

Na adolescência sempre foi bem disposta e desportiva, com queda para as artes e humanidades, mas com um pé na Igreja. Sou católica apostólica romana dos quatro costados, vou à missa frequentemente apesar de saber que não sou o estereótipo do católico. Antes de cantar benze-se e reza sempre, sabe que não está sozinha, mas a fé não se explica e na família sempre foram todos dados tanto às coisas sagradas como às profanas. Mas já lá vamos.

A mudança para Coimbra começou com a escola. O 10º ano na Quinta das Flores não foi fácil, tinha de me levantar às 6h para ter aulas às 8h30 em Coimbra, e ainda não havia nada naquela zona, era um buraco, e isso lembro-me que mexeu comigo. Um acidente grave, no ano seguinte, também não ajudou. Tinha 16 anos e fiquei um bocadinho mais reservada, mas passado o susto formou o primeiro grupo musical, os Kvaropo, e não demorou até vir o primeiro desafio para cantar em público num casamento. Depois veio outro, e mais outro, e a equipa ainda hoje se mantém.

A primeira referência, enquanto cantora, foi a norte-americana Sarah Vaughan. Era grandiosa, lembro-me de ouvir um best off e pensar: Fogo, como é que isto se faz? Elis Regina, Mônica Salmaso, Chico Buarque, Chet Baker, e os olhos brilham.

Susana China fez um curso técnico e trabalhou em edificações e obras, mas as aulas de voz, e, principalmente a vocação para ensinar, levaram a melhor. Não gosto da palavra paixão, acho que a paixão cega-nos e a vocação é a descoberta de um caminho que faz encontrar o amor, e o amor é uma escolha. É como o sonho, eu sonho quando estou a dormir, a minha palavra preferida é esperança. Talvez por isso o livro que mais gostou de ler tenha sido A Peste, de Albert Camus.

Professora de voz, dá aulas em vários sítios, como a Academia de Música de Coimbra e o Colégio da Imaculada Conceição em Cernache, porque isto viver da música é tenebroso, sobretudo não tendo nome na praça e não sendo mainstream. Pelo menos até ter sido, recentemente, nomeada para o Melhor Álbum Jazz & Vocals e Melhor Design dos Independent Music Awards com com o primeiro disco, Trapézio (2018). É muito fixe, somos só cinco no mundo, claro que é fixe, mas não sou só eu, é uma série de gente que trabalha comigo e com quem encaixo musicalmente, são anos que estão aqui. 

Susana nunca pensou gravar um álbum, da mesma forma que descobriu primeiro a vocação para ensinar e só depois a de cantora, mas já está a trabalhar no segundo trabalho em nome próprio. A empática cantora e letrista –  tão empática que às vezes me incomodo com coisas que não me dizem respeito nenhum -, não gosta de exposição, apesar de às vezes não conseguir evitar dar nas vistas, e adora adolescentes, porque se calhar nunca deixou de ser uma. Anda de bicicleta quase todos os dias. Sabe que, interiormente, é um bocadinho bicho, e às vezes só lhe apetece disparar tiros e falar (muito) sozinha com a televisãomas quando sobe ao palco derrete. Não sou fofinha mas tenho uma voz doce, e tenho uma doçura que não mostro mas aparece, sou muito emocional a cantar. 

Diz que dá sempre tudo por tudo, porque não sabe quem está na plateia, como naquele concerto no centro cultural e recreativo de Bruscos. Foi dos públicos mais respeitadores. O povo não é estúpido, às vezes o povo não vai à procura e é o que ouve na rádio, mas na rádio é que querem controlar o povo. Às vezes o povo não conhece mais porque não lhe dão a conhecer. 

Susana nunca quis ser mãe, mas gosta das crianças, sobretudo pela honestidade. As pessoas ganhavam tanto se só dissessem a verdade. Porque as palavras são o que são, as pessoas é que têm medo delas e dão-lhes um peso. Eu não tenho medo das palavras. Nem é dada a amarguras – fico com a espuma dos dias -, mesmo em relação à cidade. Não falo mal de Coimbra, não tenho um pêlo encravado com esta cidade, por isso não falo mal. Estou a dez minutos de minha casa de qualquer sítio onde vá, por isso não quero sair daqui. Só gostava de ter mais sítios para tocar, mas tenho muito orgulho e gostava que Coimbra fosse mais aberta. Amém.  

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© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

 

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