André Sardet: “Se há em Coimbra, para quê ir buscar a Lisboa?”

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Diz que teve a felicidade de viver numa rua que não tinha saída. Ainda por cima chamava-se Jardim, António Jardim, na zona de Santo António dos Olivais, em Coimbra. Até aos 4 anos teve outra morada, curiosamente a mesma que tem hoje, mas é daquela que André Sardet se lembra, aquela sem saída, onde brincava com os amigos na rua até ao sol se pôr. Nessa altura, não havia aqueles problemas de falta de liberdade e também não tinha muitos brinquedos, por isso usei muito a imaginação e não havia rotinas, era sempre tudo diferente. Filho de professores, nunca teve carros novos nem tinha o guarda roupa muito apetrechado. Hoje digo isso aos meus filhos e eles respondem: Como é que é possível?

Os avós maternos são uma grande referência - ainda tenho o Renault 12 que era do meu avô -, e não é a primeira nem última referência a automóveis nesta conversa. Foi na rua sem saída que começou a paixão pelos carrinhos e, aos 14 anos, a mania das guitarras. Sempre gostei muito de música portuguesa, devorava tudo o que era Trovante, Rui Veloso, Jorge Palma e tantas outras coisas, mas como não tinha muito dinheiro nem havia tanto acesso à música como há hoje, em casa ouvia os discos de vinil que havia, dos Beatles, dos Dire Straits, dos Queen, aquelas bandas míticas. A certa altura, formou a dele: os Factor X. A nossa grande primeira aparição foi num convívio da Faculdade de Economia e houve alguém que nos viu e começámos a ir às noites do Scotch. Era tão miúdo que os pais também tinham de ir. A banda ainda durou, mas no sossego de casa, onde gostava de estar, começou a compor e a perceber que a música tinha um significado maior.

Estudou na universidade - primeiro Engenharia Geológica, depois Engenharia Mecânica -, mas aos 19 anos mandou umas cassetes para o Manuel Luís Goucha e o Júlio Isidro, foi aos programas deles, agarrou nas gravações e enviou para as editoras. Três semanas depois tinha contrato assinado com a PolyGram. Lançou o primeiro álbum em 1996, com 20 anos - já lá vão 23. Ele acreditou, e milhares de portugueses deixaram-se perder e encontrar no Azul do Céu e outras Imagens cantadas pelo músico, tão tímido que morria de dores de estômago em palco e só tem pena de uma coisa: não ter vivido uma fase que é memorável na vida de muita gente, que é a da Academia.

As idas à capital tornaram-se o pão nosso de cada dia, mas nunca se mudou de armas e bagagens. Não criei raízes em Lisboa, nunca me identifiquei muito, mas não sinto que as coisas tenham deixado de acontecer por causa disso. O terceiro disco já foi feito com a colaboração de alguns dos ídolos. A primeira filha já tinha nascido quando gravou Acústico, no Teatro Académico de Gil Vicente e...foi feitiço: 180 mil cópias vendidas num ano. Depois disso veio uma digressão ecológica e um disco de música infantil. Nessa altura, o músico já tinha a própria produtora de eventos, uma das duas actividades paralelas à música, que são a forma de não ter de lançar um álbum só porque sim, até porque, para ele, vivemos tempos estranhos. 

Há gente com muitíssimo talento em Portugal que não tem a atenção que devia ter. Por exemplo, um círculo de pessoas ligadas sobretudo à RTP, que tem feito coisas muito positivas pela música, mas, ao mesmo tempo, está a fechar-se cada vez mais e a dar palco a artistas que estão intimamente ligados ao gosto delas, pessoas que estão muito afastadas da realidade do país; é isso que critico muito, se calhar por estar em Coimbra e ter uma noção mais real daquilo que de facto acontece no país real, no Portugal profundo. A relação do público com a música também é problemática. Quase como com a da água da torneira, de pouco respeito, vamos à torneira e temos água, vamos ao Youtube e ao Spotify e temos música. E não necessariamente portuguesa. O nosso mercado é uma gota de água. 

Depois das Casas da Alta, Sardet abriu um hotel em Coimbra com a mulher, José Manuel Portugal e Maria Israel Portugal. Foi um projecto pelo qual nos apaixonámos, uma grande paixão desde o momento em que descobrimos os prédios, em que começámos a tratar do conceito, da arquitectura, da decoração, acompanhámos sempre todas as fases de forma muito próxima e acho que isso é que tem graça e faz a diferença. Todos os quartos têm o nome de um escritor que passou pela cidade e deixou uma marca, como Mário Sá Carneiro, António Nobre, Miguel Torga e Eça de Queiroz. Fica na zona classificada como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO. 

O centro histórico de Coimbra tem de ser recuperado, tem de se criar condições para a fixação de empresas e para cada vez mais pessoas o viverem; acho que deveria haver uma bolsa de habitação, tomar a posse de muitos prédios devolutos, uma entidade que tome conta deles e os ponha no mercado a preços justos para que as novas gerações se fixem em Coimbra. Apesar de a cidade ter um espírito que é histórico e é tramado. Pode-se ter a mesma coisa do que noutros sítios, mas como vem de fora é melhor. Mas, se há em Coimbra, para quê ir buscar a Lisboa? Também falta algum rasgo, mas já se nota que há outra geração a trabalhar, com mais ideias, mais mundo. 

André Sardet diz que o acham arrogante. A verdade é que, desde determinada altura, sempre que se chateia com alguém diz o que tem a dizer na hora. E a partir daí nunca mais tive dores de estômago. Cozinhar e ir ao supermercado também ajuda. Podem encontrar-me muitas vezes nas compras. De resto, segue a estrada da vida, pela rua que talvez não tenha saída, mas o fim há-de estar longe e o corpo não desiste. Levo nos braços a guitarra para tocar, tenho por coro a velha estrela polar.

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© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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