COIMBRA OUT LOUD

José Costa: “O meu pai dizia-me sempre: a melhor arma é a cultura”

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Os pais separaram-se quando tinha uns dois meses. D
evia ser muito feio! Desde então as segundas e terças são da mãe, as quartas e quintas do pai e os fins de semana alternam. Às vezes só era difícil por causa dos livros, sou perfeitamente distraído e deixava tudo em todo o lado. A casa da mãe era no Bairro da Quinta de Santa Apolónia, na zona de Eiras, em Coimbra, e o pai vivia no Monte Formoso. Passou alguns períodos em casa dos avós, por motivos de saúde deles, e entretanto o pai mudou-se para a Dias da Silva. Era melhor para sair à noite. Mas isso foi mais tarde. Antes, José Costa ainda andou no Colégio Rainha Santa Isabel, sempre complicado porque não gostava muito de rezar. Gostava era de estar no canto dele, a ler, por exemplo. O meu pai dizia-me sempre: Zé Maria a melhor arma é a cultura. Hoje em dia só não lê mais porque é desorganizado, mas aquela meia horinha antes de adormecer tem de ser. A música começou quando a mãe lhe deu uma bateria. Estava em casa dos meus avós, para onde ia depois da escola, e tocava sempre lá, mas só meia hora porque era no sótão, mesmo por cima da cozinha onde eles estavam. Em 2011, já os Flying Cages tocavam os primeiros acordes na Escola Secundária José Falcão, quando o desafiaram para se juntar à banda. Tinha 14 anos. Do sótão dos avós voou para a garagem do Rui (Pedro Martins). Passámos o primeiro Verão lá fechados. Bendita garagem. Gostavam todos do mesmo tipo de música, indie, grunge, rock. Zé confessa que ouvia muito muito muito Artic Monkeys – e isso nota-se. Foi uma das minhas bandas preferidas, olhando para trás acho que (a semelhança da voz à do vocalista, Alex Turner) se prendia muito na dicção, mas acho que já mudou um bocado. No outro dia, leu uma entrevista do Bob Dylan, onde ele diz que o único ponto bom de estar a fazer música agora, é olhar para trás e conseguir compreender muita coisa que antes não compreendia. Mas o que é que ele sabe? Sou um puto na verdade, nem sequer tenho uma personalidade formada. No entanto, dos ensaios na garagem e numa sala no Centro Comercial Avenida já viajou com a banda por paragens desde o Nós Alive e o Sabotage, na capital, até Espanha e Itália. O primeiro disco saiu em 2016, Lalochezia, e o segundo em 2017, Woolgather, uma palavra que quer dizer sonhar acordado. Escrevo sobre raparigas, aquele cliché, mas gosto de escrever sobretudo sobre o que não aconteceu. Escreve, compõe e toca guitarra, mas geralmente as ideias vêm-lhe à cabeça do nada, por isso o mais provável é gravá-las em ambientes onde não dá jeito nenhum. Geralmente é quando estou aborrecido, às vezes no café com os amigos, vou à casa de banho e faço algumas figuras tristes a cantar baixinho para o telemóvel. No Académico, no Galeria Santa Clara, sobretudo nesse porque, à semana, sei que vou para lá e não encontro ninguém, devem ficar fartos de mim porque às vezes fico até às 2h da manhã na mesa mais ao fundo. O problema é a insatisfação. Mesmo que fique contente com as canções no momento em que as termina, depois começa a achar que podia ter feito melhor. Até quando passam na rádio. Na primeira vez que ouviachava que ia ser um sentimento de orgulho, de conquista, mas foram aqueles 5 segundos de tensão, e depois: é isto? E agora? Fiquei em silêncio e depois só pensei: Pronto Zé, já está. Diz que não tem quase cultura nenhuma de música recente, por isso é quase a antítese do resto da banda. Conhece (claro) Tame Impala, Mac DeMarco, mas, mesmo acreditando que há bandas muito boas, hoje em dia nada o agarra com facilidade. Gosto muito de Lou Reed e dos Velvet Underground, era a música que ouvia no carro com o meu pai. A minha mãe era mais Queen, que também gosto, e Elton John, Beatles, mais do John Lennon. Não quer fazer o papel de solitário, mas não tem grande vida social. Nem gosta de falar sobre a banda. No outro dia, durante um jantar, a minha família decidiu mostrar a toda a gente uma entrevista na televisão e foram os piores 20 minutos da minha vida. Olhando de fora, pode soar a falsa modéstia ou modéstia a mais. Mas é assim, acho que aceito melhor as críticas do que os elogios e ainda não aprendi bem a lidar com isso. Até porque, por exemplo: Interesso-me muito por Física e, às vezes, quando me estão a dar os parabéns, penso que tenho colegas tão fixes no campo da Física e da Electrotécnica, então e eles? Zé estudou Design e está a fazer a tese de mestrado em Informática, mais precisamente Inteligência Artificial ou Sistemas Inteligentes. Nunca viu a música como uma coisa séria, nem teve bem definido o que queria ser ou fazer, mas quando mete uma coisa na cabeça faz. E fui fazendo. O ano passado foi o pior, com matemáticas que nunca tinha tido, estava sempre fechado no apartamento, e ainda estou. Acorda todos os dias tarde e a más horas. Não sei como é funcionar de manhã, se acordar às 9 para estudar começo a estudar verdadeiramente para aí ao meio dia. O pai queria que ele fizesse Erasmus. Mas eu fiz um acordo com ele que se fizesse os estudos todos nos 5 anos, depois tirava um ano para fazer o que me apetecesse. Está quase, mas como ainda não está, não há plano. Coimbra vai ser sempre casa. Tenho muitos amigos a ir ou querer ir para Lisboa, mas eu gosto de viver cá, sobretudo quando vou a Lisboa. É capaz de ser o sossego. Sei que o que os move é haver coisas para fazer, mais a acontecer, mas eu não preciso disso, nem sequer gosto muito de ir a concertos, o último foi há dois anos e, mesmo nos nossos concertos, prefiro sempre ficar lá atrás. Admite que, às vezes, não consegue ser aquele frontman que está sempre a puxar pelo público – se as pessoas se estiverem a cagar, não faço teatro -, mas o que canta, vem de dentro. Também diz que não é fotogénico e, no entanto, aqui estamos. Regardless of what the truth might bring. 
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© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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