CIDADE

Este roteiro pela cidade de Coimbra é mesmo original

O interesse por património e fotografia foi o mote para criar o Azulejo Publicitário Português.

Descobrimos o Azulejo Publicitário Português nas redes sociais e demos por nós a escarafunchar todas as fotografias publicadas de exemplares de painéis de azulejos publicitários, num misto de nostalgia e de contemplação. Fomos saber mais sobre este projecto que é um daqueles casos que junta o útil ao agradável.

Cátia Santos, Isabel Boavida (arquitectas) e David Francisco (programador web) estudaram na Universidade de Coimbra e partilham o gosto de viajar pelo interior do país. Numa das viagens, em Outubro de 2018, passaram por Alter do Chão (Alto Alentejo), e os olhares prenderam-se num painel publicitário ao Nitrato do Chile colocado na fachada de uma casa isolada na berma da estrada. Estamos os três no início da casa dos 30 anos, e os painéis publicitários, sobretudo os referentes ao Nitrato do Chile, Firestone e Licor Beirão, estão muito presentes nas nossas memórias de infância.

Quase que apostamos que não serão os únicos e que, se puxarmos pela cabeça, também nos vamos lembrar de um ou outro painel de azulejos que casa o marketing da época com um revestimento tão tradicional em Portugal. O trio responsável pelo Azulejo Publicitário procurou saber se haveria alguma informação organizada sobre os painéis de azulejos publicitários que existem no país e concluiu que não. Assim, já que se interessam por património e por fotografia e aproveitando as competências de programação de David Francisco, avançaram com a criação de um repositório online para facilitar a divulgação dos exemplares de painéis de azulejos publicitários. Hoje em dia, a fototeca alimenta-se com as pesquisas do trio de exploradores mas também com as sugestões enviadas pelos seguidores nas redes sociais.  

O Azulejo Publicitário nasceu com verdadeiro espírito de missão e os seus responsáveis entendem que este património é especialmente vulnerável pois os exemplares estão frequentemente colocados em edifícios privados e, como tal, facilmente sujeitos a desaparecerem quando os imóveis são sujeitos a obras ou a demolição. Aliás, há numa nuance que diferencia estes azulejos: pelo simples facto de serem publicitários (o que requer o pagamento de uma licença), fez com que muitos tenham sido cobertos com tinta ou destruídos. Por outro lado, por dizerem respeito a produtos ou marcas que já não existem no mercado, muitas pessoas não lhes atribuem valor.

Na opinião de Cátia, Isabel e David, estes são objectos que merecem protecção não só por serem interessantes do ponto de vista artístico mas também considerando as técnicas utilizadas na sua pintura e o facto de terem sido produzidos por fábricas, oficinas e ateliers historicamente importantes na produção industrial e artística nacionais.

O Azulejo Publicitário Português em Coimbra

Pelo meio da grelha da fototeca, encontrámos uma proposta de roteiro pela cidade que promete deixar-vos a olhar para Coimbra com outros olhos.

Paragem #1: Rua Manuel Madeira

Na zona industrial da Pedrulha, encontra-se um painel de propaganda à Sociedade de Mercearias e Farinhas Limitada Fábricas Triunfo, na parede de um dos seus edifícios fabris que se dedicava à produção de massas e bolachas, actualmente devoluto. O painel azulejar tem formato circular, e possui a inscrição Fábricas Triunfo · Porto Coimbra Lisboa que emoldura uma imagem, de linguagem renascentista, de um cavaleiro triunfante no seu cavalo alado, inspirada na obra Le Triomphe de l’Art de Léon Bonnat (1894).

Paragem #2: Rua Manuel Madeira

Na mesma rua, podem também ver um painel de azulejo com a inscrição ESTACO / azulejos louças / Estatuária Artística de Coimbra S.A.R.L.. A Cerâmicas Estaco, fundada em 1943 como Estatuária Artística de Coimbra, com localização na zona do Arnado, foi, anos mais tarde, transferida para a Pedrulha, altura em que a designação foi alterada. A fábrica, que produzia para o mercado nacional e para exportação, acabou por encerrar em 2001, encontrando-se actualmente em ruínas.⁣
O painel azulejar, de estética simples e sem decoração, está colocado numa das paredes do antigo corpo da portaria da fábrica.

Paragem #3: Rua da Moeda

Em plena baixinha de Coimbra, um conjunto de quatro painéis azulejares com as inscrições Casal Frades / Restaurante e Vinhos / Licores / Cervejas / Tabacos sugere as actividades de restauração e comércio que, em tempos, terão animado o rés-do-chão do edifício que ornamenta, hoje semi-devoluto. As inscrições são emolduradas por enrolamentos, sendo os cantos rematados com azulejos de motivos geométricos.

Paragem #4: Largo da Freiria

Se continuarem pela Baixinha, espreitem uma vistosa composição azulejar que decora a frontaria do estabelecimento que funciona no rés-do-chão. Este é hoje um snack-bar (como atesta um pequeno painel de azulejos independente da composição original), que herdou o nome da Padaria Popular, em tempos aí instalada.⁣

Na composição azulejar sobressai, ocupando toda a largura da fachada, o nome do antigo estabelecimento e do seu proprietário, Agostinho Rodrigues Bela. Nos panos de parede entre os vãos, emolduradas como em nichos, apresentam-se as gravuras de uma ceifeira e da Rainha Santa Isabel, ligadas à simbologia do pão como base da alimentação popular. Toda a composição é cuidadosamente decorada por representações multicolor de arranjos florais juncados de espigas e rosas.

Paragem #5: Avenida Cidade Aeminium

A olhar o rio Mondego, junto à ferrovia, ergue-se um distinto edifício quase todo revestido a azulejos. Trata-se do Grémio da Lavoura de Coimbra, como atesta a inscrição sobre a porta principal na fachada voltada para o recinto da Cooperativa Agrícola da cidade. Assinado pela Fábrica Aleluia, o painel de hoje vai buscar os tons à imaginária da terra cultivada e seus produtos: a cor de vinho nas letras, o dourado dos cereais e o verde dos campos na moldura. Embora abandonada, a construção representa um importante património azulejar.

Paragem #6: Rua dos Gatos

Nesta rua só podíamos mesmo encontrar um felino a guardar a paragem de hoje: A toca do gato. Este painel, que partilha o tamanho e o azul das placas toponímicas da área, data da década de 1980 e é obra de várias mãos, como parece comprovar a sua assinatura. O conjunto está colocado sobre a entrada do estabelecimento a que dá nome, um antigo restaurante, com alvará desde 1937. ⁣Numa composição equilibrada e rematada por moldura com motivos vegetais, conjugam-se texto e ilustração do animal no abrigo, enfatizado como tal pela particular representação das duas árvores que se vêm na imagem – é que parece que para aqueles lados fazia ventania.

Paragem #7: Rua do Arnado

Nesta rua encontra-se o antigo edifício da empresa Coimbra Editora e exibe, sob as janelas do 1.º andar, um painel com o nome do estabelecimento, numa fonte geométrica sem serifas, em caixa alta. O nome está pintado em azul sobre um fundo branco e é emoldurado por um friso simples, pintado com o mesmo azul sólido.⁣ A Coimbra Editora foi fundada em 1920 por um grupo de professores universitários e fechou portas após 95 anos de existência. O edifício será agora transformado num centro tecnológico pela empresa Critical Software.

Fotografias de Cátia Santos, David Francisco e Isabel Boavida

AZULEJO PUBLICITÁRIO PORTUGUÊS
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