COMPRAS

Este restaurante merece uma entrada directa para a lista dos preferidos da cidade

Produtos de qualidade e frescos cozinhados com aquele sabor de casa no restaurante Quinta Matéria, em Celas.

Comecemos pelo fim: anunciem a boa nova aos quatro ventos, organizem o próximo encontro de família, façam uma pausa no trabalho, convidem aquela pessoa especial para jantar e façam reserva no restaurante Quinta Matéria que enche as mesas de pratos que lembram a cozinha das avós mas com técnica e apresentação dignas de Masterchef Australia.

O espaço é simples, luminoso e confortável. Os proprietários Jorge Bolito e Raquel Machado querem que a atenção recaia na comida e que a refeição, a sós ou partilhada, seja o principal. Jorge explica que quando nos lembramos do espaço e do vinho mas não falamos da comida é mau sinal.

O Quinta Matéria é um restaurante que utiliza produtos frescos portugueses, sazonais e de qualidade. A cozinha é simples e tem sabor de casa, mas com técnicas novas. Há alguns pratos de tabuleiro (como o Bacalhau à Braga) que são transformados em pratos pequenos para que possam pedir vários, num conceito de mesa de partilha, à portuguesa.

Por incrível que pareça, a cozinha não tem congelador nem micro-ondas, ou seja, a comida é o mais fresca possível. A boa comida não é rápida e, apesar de haver muitas preparações que são adiantadas, normalmente a comida é feita no momento. Assim, a porta da cozinha está aberta para que todos vejam que não há nada de esquisito a acontecer: os legumes estão num canto, não existe nada que acelere a comida, molhos a apurar e uma série de diversos processos de fermentação a acontecer em simultâneo – massa mãe para os diferentes tipos de pão e legumes em vinho branco e vinagre em condições de temperatura e luz controladas (os chamados encurtidos).

Mas vamos ao que interessa: o nosso almoço.

Ao almoço, há um menu executivo que muda em cada semana (e até pode mudar durante a própria semana porque ali só se usam produtos frescos). O prato do dia custa 8€ e inclui o couvert e uma bebida de cápsula ou um copo de vinho ou uma cerveja normal. A sopa custa 1€ e a sobremesa 2,50€.

Para começar, o habitual couvert contou com pão de cebola e vinho tinto, pão de azeitona, foccacia (cuja fermentação demorou mais de uma semana), manteiga de azeite dos Açores e manteiga fumada. Tudo (mas mesmo tudo!) é feito ali.

Em seguida, escolhemos um arroz caldoso do baixo Mondego com pescada em manteiga e peito de frango do campo, puré de cenoura e manteiga de ervas. Como explicar o fogo de artifício na boca? A pescada, escalfada em manteiga de tomilho, quase não é mexida e fica ligeiramente cozinhada – suave, derrete-se em cada garfada. A couve flor encurtida ajuda a cortar a gordura do arroz caldoso, feito com tomates e pimentos assados. O frango foi cozinhado levemente em manteiga para não ficar seco no interior e a alheira é caseira, de uma senhora de Mirandela. O acompanhamento é um puré de cenoura (feito com apenas com cenoura – suada durante 3 horas – e sal), legumes assados, legumes salteados e também alguns encurtidos para cortar a gordura do frango.

Achávamos que estava tudo delicioso mas ainda não tínhamos provado as sobremesas da Raquel: uma tarte de côco da mãe Paula servida com curd de limão e merengue e um prato que os clientes não deixam sair da carta, a banana da Madeira, amendoim e chocolate, um hino à qualidade dos produtos e ao equilíbrio dos açúcares e dos sabores no final da refeição.

Na carta do jantar, espreitamos pratos conhecidos como ovos da avó, bacalhau à Braga, alheira com migas Poveiras, torresmos da Beira bife à Portuguesa, com preços que variam entre os 4€ e os 7€ por porção. Aliás, lá porque já trabalhou em restaurantes com estrelas Michelin, Jorge avisa que não devem esperar nomes pomposos na ementa. Mas por que é que vou dar um nome aos ovos da minha avó? Raquel riu-se e partilhou aquela vez em que leu um estufado de carne enrolado em massa tenra polvilhado com pão ralado – é apenas um rissol!

Não torçam o nariz se pensam que os pratos não surpreendem e se acham que sabem fazer, por exemplo, brás de bacalhau. É que este tem cebola caramelizada, lombo de bacalhau confitado, gema de ovo confitada, puré de azeitona e uma bolacha de batata frita que forma uma renda em cima do prato. Ao servir, parte-se, mistura-se, embrulha-se et voilào sabor vai estar praticamente idêntico ao das nossas mães, parece que se sente a cebola quase queimada do fundo do tacho.

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Tanto Jorge como Raquel podem preparar uma opção vegetariana, sem glúten ou vegan com o que houver na cozinha naquele dia. É sempre melhor avisar, no momento da reserva, se tiverem alguma restrição alimentar.

Jorge Bolito, natural de Andorinha, tirou o curso na Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra e depois voou (bem alto) por Barcelona, no antigo restaurante Dos Cielos dos irmãos Torres, um dos melhores do mundo. Passou também por França e por outros restaurantes em Portugal, como a Quinta das Lágrimas, e já teve vários convites para trabalhar em restaurantes de renome. Confessou-nos que a pior crítica que recebeu foi de que um prato de carne sabia demasiado a carne e isso diz tudo do selo de qualidade deste chef.

Raquel Machado também estudou na EHTC, estagiou no restaurante Eleven (Lisboa) mas não gostou de viver na capital. Depois de ter trabalhado noutro restaurante e noutra cidade com Jorge, conseguiu convencê-lo de que Coimbra é muito mais do que uma cidade de estudantes. Para além de ter partilhado que é um gosto andar a correr daqui para acolá à procura do melhor produto, contou-nos que, muitas vezes, as sobremesas saem de sonhos.

A semana de ambos começa às terças-feiras de madrugada, com a ida ao mercado. No início, as vendedoras olhavam de lado para Jorge porque ficava a falar sozinho para os legumes mas é assim que o encontramos quando está a decidir o menu.

QUINTA MATÉRIA
Rua Afonso Henriques, 55 R/C Direito – Coimbra
Contactos: quintamateria.rest@gmail.com, 914 838 383
Horário de funcionamento: 3a a 5a das 12h às 15h e das 19h30 às 23h | 6a e Sáb 12h às 15h e das 19h30 às 23h45 | Encerra aos Dom e Seg.

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