Lobos, baleias e hipopótamos moram na mesma casa (e que casa!) em Coimbra

Esta sala está fechada desde o Leslie, foi muito danificada, telhas que caíram, vidros que partiram, conta-nos o paleontólogo Ricardo Paredes, enquanto aponta para o tecto da sala dedicada à diversidade de Portugal, que agora passa a chamar-se Biodiversidade de Portugal, no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (MCUC). Mudaram os dioramas, que são as vitrines onde se vêem exemplares de animais taxidermizados neste museu dentro de um museu, onde só entrar e percorrer os corredores altos, com chão e paredes com azulejo e mobília de madeira antiquíssima é uma experiência com sabor a privilégio. 

O Museu da Ciência é o mais antigo do país a funcionar no sítio onde foi originalmente fundado, apesar de estar em permanente construção. Mas se já foi laboratório, escola e reserva de um sem número de relíquias, há algum tempo que, estando todos os dias aberto ao público, tem uma missão: inspirar e motivar os cidadãos para a ciência. Até porque não é preciso ser cientista nem para perceber nem para gostar do que por lá há. E há mesmo muita coisa, entre esqueletos, répteis, plantas, aves, peixes e mamíferos.

Antes de irem, é importante saberem que as colecções se distribuem não por um mas por dois edifícios do iluminismo: o Laboratorio Chimico (que esteve devoluto durante anos e foi requalificado) e o antigo Colégio de Jesus. Ficam um em frente ao outro, no Largo Marquês de Pombal, junto à Sé Nova.

A maioria dos objetos no antigo colégio datam do Século das Luzes, alguns foram lá parar directamente da colecção de física experimental do Colégio dos Nobres em Lisboa e das Viagens Philosophicas de Alexandre Rodrigues Ferreira à Amazónia. Parte pode ser visitado nas salas originais do século 18. 

Quando fizemos a nossa visita estavam a ser preparados, entre outras coisas, os novos dioramas, agora com reproduções de paisagens portuguesas, feitos por profissionais do Museu Nacional de História Natural e da Ciência da Universidade de Lisboa, Pedro Andrade e Ana Campos. A ideia é tirar o discurso apenas da zoologia e ir à botânica, à geografia, ter uma visão da Natureza menos agressiva e humana, por assim dizer, mais ecológica, falando na mesma do declínio dos habitats mas numa perspectiva mais harmoniosa ao mesmo tempo que se alude para valores estéticos da paisagem, da ocupação do território e de forma mais sustentada, explicou-nos Ricardo. Está tudo a ser refeito, mesmo com mais qualidade em termos de materiais também.

É preciso notar que este é um trabalho de adaptação contínuo e feito dentro de várias limitações. Uma delas é o mobiliário antiquíssimo que, ao mesmo tempo, é uma mais valia. Sai a perder a linguagem do Museu, que é menos fluída para o visitante comum, e temos de investir nas visitas guiadas ou, espero que seja esse o caminho, o recurso a tecnologias como os QR Codes, realidades aumentadas e audioguias que permitam usufruir da estética histórica, mas permitindo que as pessoas saiam daqui com uma história bem sabida ou, pelo menos, enriquecida, continuou o paleontólogo. Isto é muito mais do que um gabinete de curiosidades, frisa.

Também conversámos com a bióloga Cristina Rufino e vimos quer as salas visitáveis, do fascinante Gabinete de Física à Galeria de História Natural (fundada em 1772) passando pelas Salas de Vandelli, das Viagens Filosóficas, do Mar, de África, das Avestruzes e de Portugal, quer as pouco ou nada conhecidas, como a dos Minerais e a dos Fósseis (fechada ao público).

O esqueleto da baleia, com 20 metros, é a super estrela incontestável, e o urso e o esqueleto de hipopótamo também têm muito sucesso, bem como os animais que os miúdos reconhecem de filmes como o lémur semelhante ao do Madagáscar. Nenhuma área temática está montada nessa linguagem, os contextos são Portugal, os territórios colonizados e as colheitas feitas em viagens desse carácter. Ricardo Paredes lembrou-nos que a primeira foi feita logo nos finais do século 18, saída de Coimbra com gente com a ideia de cartografar e dar a conhecer os territórios longínquos. Alguns só foram, nunca voltaram.

Na recriação do gabinete de Domenico Agostino Vandelli (1730-1816), o fundador do Museu formado em Medicina e História Natural em Pádua, podem ver peças incríveis, como monstros e partes de seres que, na altura, e por desconhecimento, eram associadas a seres míticos como unicórnios. É um sucesso, toda a gente adora tirar fotografias, sobretudo os rapazes porque as meninas têm medo, contou Cristina. Também os instrumentos e equipamentos que se usavam para preparar, guardar e montar os exemplares.

Neste que é o mais antigo núcleo museológico português de história natural e instrumentos científicos – inserido no património da Universidade de Coimbra Alta e Sofia, classificado pela UNESCO como património mundial em 2013 -, explora-se o potencial do antigo Colégio de Jesus respeitando a memória do lugar que concilia a lógica do pensamento jesuíta com a vocação experimentalista do Marquês de Pombal, alinhado com a Declaração de Buffon acordada em Paris em 2007 por 93 instituições de história natural de todo o mundo.

O Museu é bastante visitado, sobretudo por escolas, e até porque vai tendo exposições temporárias. Neste momento podem ver a Visto de Coimbra – Os Jesuítas e o Mundo, sobre a Companhia de Jesus. O nome inspira-se numa gravura da Lua da autoria do padre Cristovão Borri, feita em Coimbra em 1626, que foi a primeira ilustração científica na área da astronomia feita em Portugal e a segunda a ser publicada, apenas precedida pela de Galileu na obra Siderius Nuncius, 16 anos antes. No Laboratorio Chimico estão Segredos da Luz e da Matéria, uma exposição que a partir dos objectos e instrumentos científicos das colecções da UC com experiências e módulos interactivos que possibilitam a observação de fenómenos, desde a experiência de decomposição da luz de Newton até à neurobiologia da visão.

No Sábado, dia 18 de Maio, têm uma óptima oportunidade para visitar o Museu porque é Dia Internacional dos Museus e Noite dos Museus. Há visitas guiadas gratuitas todo o dia e uma série de iniciativas programadas com entrada livre, desde uma palestra às 11h sobre A viagem de Gama segundo Camões, por Carlota Simões (Museu da Ciência da UC), até às interessantes actividades Hands On de Antropologia, Botânica, Zoologia, Geologia, Instrumentos científicos, Engenharia e Conservação como A ferrugem dos cereais, por Ana Cristina Tavares, e o Ferro de Portugal, pelo próprio Ricardo Paredes (Museu da Ciência da UC). É uma oportunidade quase única para ver a ala dos Minerais, que durante o resto do ano só abre uma vez por mês e por marcação.

Às 18h há concerto de alunos de violino do Conservatório de Música de Coimbra e antes disso os CTT apresentam a emissão de selos Museus Centenários e carimbo comemorativo do dia. Às 16h30, é apresentada a colecção Amazónia, inspirada nas recolhas etnográficas de Alexandre Rodrigues Ferreira, com a presença de índios da etnia ameríndia Kayapó. Têm mais informação aqui.

 

MUSEU DA CIÊNCIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
Museu da Ciência, Laboratório Chimico – Largo Marquês de Pombal, Coimbra
Atenção que algumas visitas são com marcação
Preço: 5€ (com descontos)
Marcações: reservas@uc.pt, 239242744, 239242743
Mais informações aqui
Contactos: 351 239 85 43 50, geral@museudaciencia.org

 

*Artigo actualizado a 14 de Maio de 2019

 

 

 

 

 

 

 

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