Lara Martins: “O problema de Coimbra é o das capelinhas”

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As primeiras memórias são de passear no Penedo da Saudade. Na altura andava numa creche lá perto e lembro-me de ir para lá brincar, naqueles banquinhos de pedra. Parecia tudo enorme e agora é minúsculo. Pelo menos é o que Lara Martins acha, já não vai lá há muito tempo. Sempre que volta a Coimbra só tem tempo para ver a família a correr e pouco mais. Longe vão os tempos em que cantava em frente ao espelho e se fartava de ouvir música clássica e ópera com o pai. Tenho esta imagem dele com o disco de vinil da La Traviata na mão, a explicar-me a história toda, a Dama das Camélias. Eu e ele íamos de propósito ao São Carlos, a Lisboa, só para ver ópera. Mal sabia ela. A soprano diz que todas as crianças cantam e brincam em frente ao espelho mas ser cantora nunca lhe passou pela cabeça, a vida é que lhe trocou as voltas.

No colégio onde andou, em Cernache, o professor Avelino reparou que tinha alguma apetência ou talento, vá. Então começou a cantar muitas coisas com ele e a ganhar o gosto. Com 17 - porque só se pode aos 17 -, fez as provas para aprender canto no Conservatório de Música de Coimbra e, na audição, não podia cantar outra coisa senão Madredeus. Era completamente apaixonada, era a fã número um da Teresa Salgueiro; no nosso grupo de amigos, aquelas coisas de adolescentes, a Lara cantava 30 vezes as canções dos Madredeus. Mas insiste: nunca pensei na vida que iria ser cantora. Lara Martins queria seguir Direito, via-se como delegada do Ministério Público ou algo assim. E chegou a começar o curso na Universidade de Coimbra, durante alguns anos fez as duas coisas mas, mais uma vez, o destino soprou-lhe ao ouvido.

Tinha 21 anos quando, numa masterclass, chamou a atenção de uma professora inglesa que lhe sugeriu que fizesse provas para algumas escolas no Reino Unido. Foi, viu e venceu. A verdade é que todos os planos que eu fiz para a minha vida saíram furados, cheguei a um ponto em que já não faço mais planos. Em Inglaterra teve de aprender muita coisa, inclusive em relação à imagem que foi mudando consoante o meio, da ópera clássica aos musicais e cabaré. Hoje em dia não gosto que me chamem cantora de ópera ou cantora lírica porque não me vejo assim, prefiro que digam que sou cantora ou mesmo uma performer, não gosto de ficar numa caixinha. É que tanto a podemos ver a fazer um concerto erudito de música contemporânea como um cross over a cantar músicas de filmes. A música ou é má ou é boa e eu não sou snob nesse aspecto. Até porque tudo depende dos convites.

Lara Martins é daquelas pessoas que estão sempre a tentar aperfeiçoar tudo o que fazem e gosta da vida agitada. Muito agitada. A voz da soprano já se ouviu dos teatros de Modena, Ferrara e Piacenza, em Itália, ao Kremlin, em Moscovo. Durante 6 anos foi, 8 vezes por semana, todas as semanas, Carlotta Giudicelli no musical O Fantasma da Ópera, no Her Majesty's Theater, em Londres. Abriu-me imensas perspectivas como artista. Era vista por milhares de pessoas. Mas obviamente que, a nível artístico, chega-se a um ponto que: Meu Deus, já não consigo cantar nem mais uma nota deste papel. Se chegou a Londres completamente sozinha e directamente para uma das escolas mais competitivas do mundo, a Guildhall School of Music and Drama, hoje em dia está completamente rendida ao buzz da capital britânica. É uma meca cultural, podes ver um espectáculo fabuloso todos os dias ao pequeno-almoço, à tarde e à noite. Viver em Coimbra? Talvez na reforma. Até porque, apesar tudo, passa um pouco despercebida.

O problema de Coimbra é o das capelinhas, em vez de se unirem as pessoas estão sempre a tentar aniquilar-se umas às outras, e eu nunca me quis envolver muito nisso. O preconceito também não ajuda. Em Portugal a maior parte das pessoas não vai à ópera porque está conotada com este: Ui, não! Ópera? Que horror! Temos de abrir a novos públicos, mas a forma de fazer isto não é evidente. Evidente é a versatilidade, a energia e a paixão de Lara, que quando não está no palco, de um teatro ou da vida, quando o relógio abranda e a luz baixa, é provável que esteja em casa, sossegada, a preparar o jantar. As pessoas estranham mas a minha casa é silêncio. Xiiiu.

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© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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Rita Ribeiro Voss
28.04.2019

Bela matéria sobre a contora.