Há 50 anos não havia nada e quando um estudante pediu para falar mudou tudo

Faz hoje meio século. Foi no dia 17 de Abril de 1969, em pleno Estado Novo, que Alberto Martins, presidente da Direcção Geral da Associação Académica, aproveitou a vinda do presidente Américo Tomaz à cerimónia de inauguração do Edifício das Matemáticas da Universidade de Coimbra (UC), para lhe pedir a palavra. O presidente não deu a palavra ao representante dos estudantes, porque isso simplesmente não acontecia durante a ditadura, mas a partir daí mais ninguém ficou calado.

O momento vai ser lembrado in loco esta tarde, no sítio onde aconteceu, e é apenas o primeiro de uma série de interessantes momentos de comemoração dos 50 Anos da Crise Académica de 1969, inclusive a recriação da Final da Taça de Portugal de 1969, no jogo de futebol Académica – Mafra (20 de Abril), e a recriação da repressão e cerco à UC pela Guarda Nacional Republicana, encenado pela Viv’Arte (28 de Abril). O programa completo está aqui.

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Foto: Direitos Reservados

Há meio século, a Crise Académica de 1969 significou o princípio de uma longa e dura luta pela Liberdade e Democracia em Portugal. Através de greves e faltas aos exames, aos quais as autoridades respondiam com prisão e carga militar e policial, os estudantes apelaram à reintegração de professores, democratização do ensino superior e fim da obrigação de combater na Guerra do Ultramar. O Ministro da Educação e o reitor acabaram por se demitir, mas muitos jovens foram na mesma forçados a integrar as forças armadas e partir para as antigas colónias.

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Foto: Direitos Reservados

Este ano, a Universidade de Coimbra, a Associação Académica de Coimbra e a Câmara Municipal de Coimbra uniram-se para comemorar os 50 Anos da Crise Académica de 1969.

Esta crise deu frutos importantes. A universidade e a cidade olharam-se de modo diferente. Uma série de preconceitos que existiam, terminaram aí. Houve uma simbiose, uma solidariedade, uma interoperabilidade, dir-se-ia, hoje, entre a cidade e universidade, entre doutores e futricas, que começou por aí. O uso da cidade como unidade. Começaram a ser muito mais frequentados a Brasileira ou os cafés da Baixa pelos doutores, pelos lentes, por exemplo. 
Manuel Machado, Presidente da Câmara Municipal de Coimbra
Se actualmente os nossos jovens têm acesso a um conhecimento ilimitado e sem censura, devemos à geração de 69. Se procuramos fazer novas descobertas científicas, sem o receio de um determinado estado conservador e avesso à mudança impôr a sua vontade, devemos à geração de 69. Se conseguimos abrir as portas da universidade a todos os extractos sociais, pondo fim a um ensino elitista acessível a apenas alguns, devemos à geração de 69. 
Amílcar Falcão, Reitor da Universidade de Coimbra

 

Se tiverem curiosidade, não deixem de ver este documentário, Futebol de Causas (Ricardo Antunes Martins, 2009), esta reportagem da RTP com registos fotográficos e vídeo da época, este especial da ESEC TV ou este Perdidos e Achados da SIC, no Youtube. Também podem visitar o Museu Académico de Coimbra, no Colégio de São Jerónimo, aberto de 2ª a 6ª, entre as 10h e as 12h e das 14h às 17h. A entrada custa 1€.

 

16 ABR – 6 OUT | 50 ANOS DA CRISE ACADÉMICA
Programa oficial 

 

 

 

 

 

 

 

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