Ricardo Jerónimo: “É a nossa cidade, estou aqui, por isso tenho de fazer coisas”

Ricardo Jerónimo é Jerónimo para os amigos. E para os outros também. Quase toda a gente me chama assim. Nasceu em Coimbra e herdou o ouvido para a música do pai. Não é nada de extraordinário, mas ouço uma música e consigo imediatamente tocá-la, desde que não seja demasiado complexa. A mãe tem mais a coisa do desenho e da bricolage. São professores reformados. As minhas primeiras memórias são em Celas, a jogar à bola na rua ou no galinheiro, que pertencia ao Martim de Freitas. Também no Centro Comercial Mayflower onde ficava à espera da mãe plantado na montra de uma loja de discos porque se lembra de adorar ver as capas.

Os pais não o levavam muito a ver espectáculos. Em casa ouvia-se rádio, às vezes um vinil, mas aos 12 começou a trocar cassetes na escola ou com os vizinhos. E havia códigos, uma cassete só podia ficar emprestada no máximo 3 dias. Há caixas e caixas arrumadas na garagem. Uma das primeiras que gravei era dos Pixies, o Doolittle. Jerónimo diz que sempre foi bem comportado. Nunca fui betinho, nunca tive roupa de marca, mas sempre fui muito responsável.

Estudou e trabalhou em Arquitectura, em Coimbra, e há quem diga que tem tudo a ver com ele, porque é muito racional. A música apareceu mais tarde. Tive uma brincadeira com amigos mas foi já com a Joana que começou. Joana Corker, designer, namorada desde os 17. Já quase não me lembro da vida sem ela. 

Os Birds Are Indie começaram numa noite fria e deprimente, em 2010. Resolvemos fazer uma canção, os dois deprimidos, a pensar emigrar e essas coisas, e foi uma espécie de - e isto é um bocado cheesy -, de raio de sol naquele Inverno. Na altura, a moda era indie. Essas sapatilhas são muito indie, aquela fotografia é muito indie, algumas também andavam obcecados com pássaros e nós dissemos: indie, quanto muito, são os pássaros. Mas atenção, Joana e Jerónimo já tinham 29. Ambos gostavam de rock, mas ele nunca a tinha ouvido cantar. Ela recusava-se, dizia que não gostava, eu sabia tocar uns acordes mas não fazia ideia do que era estar numa banda. Mas quem faz uma canção faz 5, quem faz 5 faz um EP, e marca concertos e faz capas de discos. Também fiz rádio, gosto muito, sobretudo em directo, foi uma boa escola para isto da música ao vivo. Isso e a escola do rock de Coimbra.

Temos uma matriz pop mas agora com a bateria e as guitarras eléctricas já estamos a resvalar para uma espécie de rockzinho. Sempre em Coimbra. Não tenho outra realidade. Mas gosta de viajar (e de falar no plural): já fomos mais do que uma vez a Berlim, não gostamos muito de ir para sítios paradisíacos, há cidades onde descobrimos um cafézinho muito fixe e ficamos ali a ler, durante uma tarde. Já leu mais, mas é como o desporto: já não faço muito. Jogou basquetebol no Olivais Futebol Clube. Agora são outras cantigas. 

Nunca fui o típico artista, despassarado, mas sinto que sempre fui um criador porque sempre precisei de fazer coisas. Havia uma altura em que andava obcecado por pintar, comecei a comprar telas e era uma coisa que me satisfazia, era chegar ao fim do dia e dizer: olha, fiz isto. Hoje em dia, ao fim-de-semana, quando não tem concertos, também não fica passivamente a ver televisão no sofá. Gosto de fazer coisas. Então trabalha na editora BlueHouse, com a Lugar Comum, com a Murmúrio Records, e organiza eventos como o Emergentes e o Epicentro!Dá-me bastante gozo, é uma coisa que não é propriamente bairrista nem muito sentimental, mas é a nossa cidade, estou aqui, por isso tenho de fazer coisas.

De Celas foi para a Solum, da Solum foi para o Bairro, como quem ia da States para o Shmoo passando pela Praça. Coimbra tem uma oferta cultural decente, não é muito cara, tem cenas artísticas, tem algumas que são uma seca como as coisas dos estudantes e aquelas de cidade pequena, de dizer mal de alguém e ser muito provável que a conheças. Mas não gosta de ser pessimista. Sempre me irritou a ideia de que em Coimbra não se passa nada, passa-se muita coisa, se não tens nada que gostes de fazer em Coimbra faz, e se não tens capacidade arranja amigos que façam, convence alguém. Coimbra é ninho. O dele e da Joana. E se o futuro for isso: já está tudo bem. Life is long. 

 

© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

 

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