Carlos Dias: “Um gajo metia-se nas bandas por causa das miúdas, não é?”

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Era o Carlos da Pedrulha. Nasceu na Sé Nova mas morou mais de metade da vida na periferia de Coimbra. O meu pai é de lá mas muito cedo vim estudar para o centro, o que é um bocado diferente do que se tivesse ficado. Sentiu o estigma mas nunca se chateou muito. Primeiro veio o gosto pelo palco, talvez nos escuteiros. Fiz de Rosmaninho na festa de final de ano no S. Teotónio. Depois teve a sorte de ter um pai que lia e levava muitos jornais para casa, e o irmão e os amigos fizeram o resto. Final dos anos 70, Pink Floyd, Genesis. Era o caçula do pessoal mais velho que ia para o monte fazer motocross, construir umas cabanas de índio e fumar. 

Carlos gostava de andar na rua. Andar na rua e ouvir música. Ouvir música e ler, ler e ver televisão. O primeiro disco comprou em 81 e a fase já era de no mesmo dia ser capaz de ouvir os Pink Floyd e o Neil Young e depois Ramones ou Kraftwerk. Carlos cresceu e apareceu. Conheci o pessoal da Solum e de Tovim, o Paulo Eno - que deu a conhecer a montes de gente muita coisa e influenciou-nos a todos -, o irmão dele e uns amigos, o pessoal do Bairro, começaram-se a criar os gangues e a formar as pessoas. E ao fim-se--de-semana, onde é que ele estava? Com um pessoal vestidos todos de igual de calça de ganga, sapatilha branca e camisolinha cinzenta à porta do Golden. Ao lado, no Café Pigalle, estavam os neo românticos. Aquela coisa dos Duran Duran, Spandau Ballet, etc.

Que fique claro: havia sempre contacto com toda a gente. Meio pequeno, as pessoas concentravam-se, conviviam umas com as outras, mais cedo ou mais tarde alguma coisa ia acontecer e se gostavam de música alguém ia começar a tocar guitarra e a formar uma banda. Um gajo metia-se nas bandas por causa das miúdas, não é? E lá aprendeu a mandar uns acordes na guitarra. Rádios escolares, rádios pirata. Havia uma que só dava para a Rua do Brasil. Objectos perdidos, Pénis Oscilantes para Vaginas Convulsivas, e em 1989, something completely different: Subway Riders, a banda sem rede inspirada na no-wave e noise nova-iorquino. Eu disse ao Vitinho que íamos fazer uma banda numa base diferente, não há ensaios, vamos improvisando, e de certeza que alguma coisa iria ficar. E ficou. Entretanto, tanto ia vendo concertos de cravo e flauta na Biblioteca Joanina como espectáculos de punk e rock. Compreendo que os Tédio Boys andassem entediados mas a cidade sempre teve outras coisas, o pessoal é que não estava interessado nelas. Carlos Dias chegou a viver em Lisboa e viajou por alguns lugares mas voltou sempre.

Por natureza já sou optimista e depois gosto mesmo muito de Coimbra. Eu fiz 18 anos em Berlim, com o muro, mas passado uma semana vim-me embora porque estava com saudades. O novo milénio lá trouxe a música de dança, a electrónica, que o músico estranhou mas entranhou apesar de não ir lá com modas. Nunca tocou nenhum disco dos Smiths na minha casa, nem Oasis, nem REM. Muita rádio, muita televisão, antena sempre no ar e o dinheiro suficiente para party, discos e concertos.

Durante quase 20 anos trabalhou em editoras e distribuidoras de música e os Subway Riders continuaram. Sempre disse sempre que só tocava com o Vítor e quando ele voltou de Inglaterra foi como se nunca tivéssemos acabado. Entretanto encontrou uns teclados nas velharias, onde gosta de andar por causa da paixão pelos discos, e nasceram os Wipeout Beat, com Miguel Padilha e Pedro Antunes. É coisa séria, ma non troppoDe repente o pessoal começou a ensaiar um bocado. Também passa música, mas não é DJ. Chamemos-lhe O Fabulástico Tocador de Discos. 

Em casa é só relíquias e o plano é organizar tudo porque a cena musical de Coimbra merece. E depois tem vida para isso. Não tenho filhos, não sou casado, vivo com pouco mas vivo na boa. Nunca foi intenção ter uma mansão ou um grande carro por isso está na boa. E isso vê-se. É um gene da família. Nunca ter tido horários é capaz de ter ajudado. Optei por não trabalhar da maneira convencional. Tenho 3 ou 4 fotos que gostei alguma vez que me tirassem e volta e meia mostro a mesma, estou com cara de puto mas está porreira. Quando a malta apanha uma multa porque não se deu conta de que estava em excesso de idade, só pode ser bom sinal. Ponto final, parágrafo.

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© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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