Sofia Leonor: “Tenho um amor talvez exagerado por esta cidade”

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É uma espécie de Benjamin Button. Parece que estou a viver ao contrário, os anos da adolescência e das loucuras. Então aqui vai, começando pelo fim: Sofia Leonor, baixista, cantora, compositora dos From Atomic, banda dreampop de Coimbra. Cocteau Twins, Joy Division, New Order, Yeah Yeah Yeahs. Sinto que nasci aos 30 e não gosto de falar do que está para trás, nem do Futuro, só do Presente.

O Presente é apaixonado e apaixonante a aprender a exprimir-se através da música, exteriorizar aquilo que estava sempre dentro da cabeça a batucar. Fico cheia de adrenalina, de tal forma que no final dos concertos apetece-me ir dormir, mas gosto dessa sensação, em palco sou diferente, pareço uma pessoa completamente diferente. Fora do palco Sofia fala baixinho. Detesta maquilhar-se, usar saltos altos, e tem a mania que é do contra por isso se as pessoas dizem que é fixe fumar não fuma, se é fixe beber não bebe. Toda a adrenalina que sinto quando estou a tocar, em casa ou em público, e a loucura que pode daí advir, vem da música e da reacção de quem tenho à minha frente. Sempre gostou do baixo porque é discreto mas essencial e uma certa ordem no caos, mas aprendeu a tocar sozinha. Primeiro um amigo, depois outro amigo.

Introvertida, sempre teve vontade de tocar mas não estava nos sítios certos nem rodeada pelas pessoas certas. Fez dezenas de canções sozinha mas achava sempre que não tinham valor por isso não mostrava a ninguém. Até ao dia em que mostrou. Sofia sempre viveu em Coimbra. Tenho um amor talvez exagerado por esta cidade. Quis fazer tudo aqui. Estudou Arqueologia, ideia fixa desde miúda. Quando somos pequenos vivemos muito à base do sonho e depois acabamos por ver muitos Indiana Jones e Les Mystérieuses Cités d'or. Como estudante também era do contra - sossegada, certinha, quase nunca saía à noite. Estava na minha bolha. Nunca teve um grupo com quem se juntava à noite para falar sobre coisas, o bairro onde vivia também não ajudava. Acabava a escola e ia para casa. Mas houve outra paixão.

Quando apareceram as primeiras equipas de futsal feminino a primeira em que jogou foi a Académica. Antes houve basquetebol, corta mato, cabelo comprido, mas era tudo bluff. Na primária ia jogar com os rapazes nos intervalos, mas na preparatória e chegando ali à adolescência confundirem-nos com um miúdo deixa-nos um bocado traumatizadas. Tem uma fotografia em que deve ter mais ou menos 1 ano e meio e já está com uma bola na mão. De resto lembra-se de andar pelos carreiros na Solum. Eram os anos 80 e havia muitas quintas. A família muito ferranha pela cidade, pela academia e pelo clube - a maioria das pessoas diz: "eu sou do Benfica mas também sou da Académica" e eu chamo-lhes bígamos -, e depois lembra-se de ir ao cinema ao Gira e passear no Choupal. Sobretudo na outra margem que tinha mais areia por isso era uma espécie de praia.

Sofia mudou e Coimbra também. Mas ao fim e ao cabo hoje, quando olhamos para o horizonte, aquilo que a caracteriza continua lá. Certo?

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© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

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