COIMBRA OUT LOUD

Afonso Pinto: “Nunca me vi como emigrante, mas depois de 20 anos acho que não há outra palavra”

DSC_6392
.

Dartacão, Avô Cantigas, Abelha Maia, hoje em dia é difícil imaginar mas tudo isso tocou na casa de Afonso Pinto. O padrasto ouvia discos de miúdas – disco sound, samba – nada que lhe apanhasse a atenção, mas em casa da tia, onde ia todas as tardes a seguir à escola, a música era outra. Tinha duas primas que me começaram a mostrar The Cure, Joy Division, Bauhaus. Eram os anos 80 e Piedade e Susana as góticas da cidade dos estudantes – or so they say. Depois veio a Rádio Universitária e o programa Santos da Casa, os primeiros concertos, e o grupo que o deixou mesmo maluco: É Mas Foice. As minhas primas levaram-me ao concerto de estreia dos que acabaram por ser os Tédio Boys. Foi no extinto Ágora, que ele era demasiado novo para conhecer. A partir daí conheci o Vitinho, as minhas primas começaram a levar-me à Praça da República e ao Moçambique, e por aí fora. Tinha 14 anos e estava longe de imaginar que, anos mais tarde, já a viver em Londres, os suspeitos do costume lhe iam meter um microfone nas mãos (e mais nada vestido) para cantar punk-rock e virar a capital inglesa de pernas para o ar. Na altura, não queria mesmo ir à universidade, não queria ir para a Universidade de Coimbra, mas também não tinha trabalho e as condições em casa não eram as mais favoráveis, por isso quando surgiu a oportunidade fez as malas e fez-se à estrada. Não foi planeado, nunca me vi como emigrante, mas depois de 20 anos acho que não há outra palavra para descrever: sou um emigrante. Um emigrante que ajuda emigrantes, é intérprete comunitário e está a estudar para se qualificar como intérprete policial e de serviços públicos. A música é um hobby glorificado, uma paixão, e a relação que quer ter com ela é mesmo essa. O desgaste físico dos espectáculos é grande, por isso para fazê-lo ao máximo tem de ser de vez em quando. Dos Mc Dolls nos anos 90 – com Pedro Calhau, Luís Peres e Tiago André -, até aos incendiários e insaciáveis The Parkinsons, para trás ficaram concertos memoráveis como a noite de fim de ano no Paradise Garage, a primeira vez no Reading Festival ou o primeiro concerto no Japão acabados de aterrar. Mas sinceramente eu até acho que estamos melhores agora. Ainda nos The Parkinsons – o gangue que se tornou banda que se tornou conjunto musical -, e em Londres com os Johnny Throttle, é destas pessoas que tocam para caralho que Afonso retira inspiração, aliás Alfonso (para facilitar a vida aos ingleses), Al (para os amigos) ou Al Zheimer (piada super idiota). Se pudesse andava sempre de manga curta, mas no dia-a-dia o cantor anda de sapato, calça e camisa e nem pensar mostrar as 18 tatuagens que tem no corpo porque a última coisa que quero é deixar as pessoas com quem trabalho pouco à vontade. Não está muito a par do que se passa em Coimbra, mas quer continuar a partir palcos enquanto nos divertirmos todos uns com uns outros. Rebelde? Sempre. Mas agora a causa é ele próprio. E a vontade de fazer finalmente algo por mim e para mim, de ser o melhor possível no que estou a fazer. Mesmo que provavelmente seja A Long Way To Nowhere com The Shape of Nothing to Come. 

 

DSC_6375

 

© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz
Entrevista: Célia Lopes

 

 

 

Um comentário

Comenta este artigo

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.