COIMBRA OUT LOUD

Ruby Ann: “Em Portugal rockabilly é aquela coisa pimpolha das meninas com as saias às bolinhas”

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“When she started rockin’ she just couldn’t stop, she rocked on the tables and rolled on the floor, and everybody yelled: Ruby, rock some more!” É a Ruby Ann de Johny Cash, mas podia ser a de Coimbra. Quando era pequena, pelas bandas de Santa Clara – quando havia lá muita coisa, farmácia, banco e tudo – Ana Valentine cantava em cima das publicidades todas, mas foi o batom que lhe deu o Ruby. Tinha 16 anos e já Torpedo, Kaló e Pedro Chau andavam pelo Moçambique. Conhecia-os todos, andávamos todos por ali e aquilo era só música e copos. Se alguma vez imaginei que ia dedicar a minha vida a isto? Não. Tanto que ainda estudou e trabalhou em Arquitectura, deixou a música em banho maria mas o estilo anos 50 ficou. Na altura não havia muita coisa, não havia a Internet que temos hoje, só os livros e os vídeos em cassetes que alguém emprestava, e o meu amigo Filipe Ribeiro trazia discos do estrangeiro. Começou a sair do país para ir a festivais, dos festivais começou a comprar uma peça de roupa aqui, outra ali. Ainda tem a primeira camisa vintage que comprou em Paris – linda, linda! – mas usa pouco porque tem medo que se desfaça. Nos anos 90 o batom vermelho era diferente e Ana era acanhada mas o palco tirou-a da bolha. O palco e um namorado que lhe disse: Por que é que não vais a um ensaio e experimentas? Ela não tinha nada que fazer e foi. Depois veio um concurso de talentos num festival, o primeiro concerto em Amesterdão, e lá nasceu Ruby Ann e os Boppin’ Boozers. Coimbra parecia um núcleo de energia musical com concertos em sítios não oficiais, havia aquela magia, agora acho que está pobre e dedicada aos estudantes, tudo o que foge à universidade não tem grande hipótese, mas há muito potencial, é uma cidade bonita e estamos aqui sossegadinhos à beira do Mondego. Mas isso é que diz agora a cantora, produtora, stage manager, coordenadora de bandas em festivais e mãe. Criou a própria editora especializada em vinil quando estava grávida. Durante 17 anos mudou de código postal várias vezes, de Coimbra para Limoges (França), de Limoges para Chicago (EUA), de Chicago para Nova Iorque, de Nova Iorque de volta a Limoges e mais tarde uma pequena cidade alemã. Tenho alma gitana, aborreço-me com facilidade, por isso tenho de andar de um lado para o outro. A paixão foi sempre o combustível e o batom foi sempre na mala, mas em Coimbra só usa de vez em quando. Quero descolar-me do rótulo rockabilly porque aqui em Portugal rockabilly é aquela coisa pimpolha das meninas com as saias às bolinhas, a imagem que existe é um bocado errada. De volta a Coimbra, cheia de planos, vê poucos apoios e uma cidade que já não é o que era onde os estudantes querem é ir para um sítio onde a música esteja a rebentar e a bebida a 1€, mas organiza festas, passa música no Pinga Amor, está de volta ao estúdio e dá concertos. Estou-me sempre a pôr em causa, nunca estou satisfeita com o que faço, mas acho que quando chegar o dia em que sair do palco e disser que sou a maior e não podia ter feito melhor, das duas uma, ou é hora de fechar a loja ou subiu-me à cabeça e estou choné. “One night, my Ruby left me all alone, I tried to contact her on the telephone, I finally found her about twelve o’clock, she said leave me alone daddy ‘cause your Ruby wants to rock”. 

 

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© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

 

 

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