COIMBRA OUT LOUD

Ruze: “É importante pensar na juventude, e não é só pensar em coisas para os ricos e os filhos dos ricos”

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Já nasceu de punhos cerrados, pronto para agarrar a vida pelos colarinhos e ir à luta. O 1º round de Rui Rodrigues foi com meses de idade no hospital, em Coimbra, onde foi adoptado. Estava tão doente que os médicos disseram que não ia resistir mas os meus pais fizeram tudo, puseram-me a andar de avioneta, levaram-me para a praia porque era isso que ia fazer bem à minha doença, e hoje estou aqui. A infância foi de puto certinho na escola, nos escuteiros, foi aí que começou a música, mas depois veio o 2º round. Conheci os meus amigos, como o Albino e o MC Down, que trouxeram de fora o estilo e a cena de um gajo andar na rua, fazer rimas na rua, onde os encontrava para estar naquela bola do rap era no apeadeiro da Espadaneira, lá ao pé da minha casa. Subiu pela 1ª vez a um palco na festa de Natal da escola, para cantar uma canção que tinha escrito sobre os meninos que passavam fome. Nunca mais ficou calado. Por onde passa guarda o que vê e depois dispara em palavras. Em casa, a canção foi outra. Já não queria estudar, o meu pai tinha andado em Angola na guerra e eu só andava com a comunidade negra, isso para a minha mãe era muito complicado. Mas o que tem de ser tem muita força. Com um rádio começou a gravar cassetes com a música dos outros, com dois rádios fazia a música dele. Hoje em dia, é só meter noutro canal, mas naquela altura usávamos dois rádios, num gravávamos uma batida, no outro a outra batida com a voz, e depois trocávamos para ficar tudo junto, percebeste? Era o final dos anos 90. O norte-americano Busta Rhimes, um dos ídolos, estourava com Put Your Hands Where My Eyes Could See e Gimme Some More. Na cidade dos doutores, Ruze tirava o curso da rua e fazia as práticas e as teóricas do rap. O canudo foi o 1º EP: Pão, Água, Rimas e Instrumentais. Era o que tinha, e quando começa a falar da cidade, a voz muda de tom e as sílabas batem como socos, neste caso na cidade. 3º round. Acho que Coimbra é uma cidade muito elitista, já fiz imensas coisas quer na cultura urbana quer politicamente, leio jornais, sei o que se passa, e o que me enerva aqui é esta distância, esta falta de apoio a nós. Está a falar de quem tem menos capacidade financeira. Admito que está a ficar uma cidade bonita, com muitas rotundas e coisas que não é preciso, mas com bons eventos – só que é só isto? É importante pensar na juventude e não é só pensar em coisas para os ricos e para os filhos dos ricos. Jardinagem, boxe e, acima de tudo, o filho de 10 anos fazem Ruze um homem feliz. Na lista de sonhos está ter um espaço para ensinar os miúdos que lhe pedem para aprender rap porque quanto mais tempo estiverem no estúdio menos passam na rua a fazer porcaria. Não gosta quando alguém pode ensinar mas não ensina. Se queres saber o que sei vou-te ensinar, senão vou estar a ser egoísta e uma pessoa egoísta não é uma pessoa fixe. For real. Já está a falar como se estivesse a cantar outra vez. 4º round: Tenho Tudo. É o nome do novo EP. E é aquilo que tem e não se vê, mas sente-se. Ando cansado mas feliz, vai correr tudo bem, sei que ainda tenho aquele fardo que ainda pesa mas vou largá-lo e isso é fixe. Posso morrer amanhã e não quero levar para o céu coisas más, tas a ver? 

 

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© Coimbra Out Loud
Fotografia: João Azevedo
Texto: Filipa Queiroz

 

 

 

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