Entrou-vos um morcego em casa? Calma, não é à toa que o Batman é um super-herói

 

INÊS TEIXEIRA2014-05-04 14_1_Fotor-1
Antropóloga e Ambientalista
ines.af@gmail.com

 

 

 

Não é que seja muito frequente mas acontece, e a experiência diz-me que é mais comum do que possamos pensar: morcegos podem entrar-nos janela adentro em plena cidade ou no campo. Mas calma, não há razão para medos.

Comecemos por fazer uma pequena desmistificação deste animal injustiçado, sim? Os morcegos não são agressivos, não atacam as pessoas e não fazem ninhos no cabelo. Os mamíferos voadores têm sim medo de nós e se soubessem que nos poderiam encontrar ao entrarem na nossa casa certamente não o fariam. No entanto, sendo animais selvagens, podem assustar-se e morder quando lhes tocamos, por isso, se tiverem de o fazer, calcem umas luvas só para não se magoarem. Ainda que eles possam contrair raiva a taxa observada é baixa e de qualquer forma as luvas jogam a vosso favor.

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Mas os morcegos não são vampiros? Há espécies hematófagas, sim, mas em Portugal os pratos favoritos dos morcegos são insectos. Sabiam que eles podem consumir mais de metade do próprio peso em insectos numa só noite? Assim é mais fácil perceberem a importância que têm no ecossistema e na economia. A verdade é que os morcegos são nossos valiosos aliados porque por ano consomem milhares de toneladas de pragas e insectos vectores de doenças. Não é à toa que o Batman é um super-herói, aprendeu com os melhores.

Das 27 espécies de morcego presentes em Portugal (25 em território continental), 9 têm estatuto de ameaça (Criticamente em Perigo, Em Perigo ou Vulnerável), apesar de todas serem protegidas por lei (Convenção de Berna, Directiva Habitats, Convenção de Bona e Acordo sobre a Conservação das Populações de Morcegos Europeus – EUROBATS), bem como os respectivos abrigos (Convenção de Berna e pela Directiva Habitats). Isto acontece por inúmeros factores, entre eles a destruição de abrigos e habitats, os pesticidas, os geradores eólicos, a intensificação agrícola, a qualidade da água, o atropelamento ou as alterações climáticas. Com todas estas ameaças, os morcegos não precisam que também nós os maltratemos só porque nos entraram em casa sem bater, e muito provavelmente por engano. Se acontecer, em vossa casa ou durante as férias, sigam estas dicas:

– Isolem a divisão, apaguem a luz e abram a janela para ele sair sozinho;

– Caso o animal permaneça pousado durante o dia coloquem-no, silenciosamente, numa caixa de cartão com furos juntamente com uma tampinha com água e um pano para ele agarrar e se sentir seguro (ver foto). Depois do pôr-do-sol, desde que não esteja a chover ou faça muito frio, basta colocarem a caixa num local calmo e com pouca luz no exterior e abri-la que ele vai sair quando assim o entender;

– Se não voar durante a noite ou estiver ferido contactem a área protegida mais próxima ou usem um dos contactos da Linha SOS;

Como as espécies de morcegos em Portugal são pequenas (5 – 45 g) os adultos são facilmente confundidos com crias, mas na verdade distinguem-se pela quantidade de pêlo. A maioria nasce no início de Junho e a meio de Julho já têm tamanho de adulto. No caso de encontrarem uma cria (com pouco pêlo), tentem pendurá-la numa parede junto à colónia de criação – sem lhes tocarem directamente para não transferirem cheiros -, ou então contactem a Linha SOS. 

Já agora, por curiosidade, já se aperceberam das vocalizações de morcegos pelas ruas de Coimbra? Nas noites entre Maio e Setembro experimentem olhar para um poste de iluminação da cidade e vejam a verdadeira caça aos mosquitos. Se os repelentes naturais já parecem uma boa ideia, imaginem se tivéssemos todos um morcego satélite, não havia mosquito que se aproximasse, mas como não é possível resta-nos deixar trabalhar a patrulha nocturna. É uma boa mensagem para passarem aos miúdos.

 

 

 

 

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