COOLTURA

Vamos ver a beleza que se esconde na sombra?

Quando pensamos em sombra e em silêncio, parece que descrevemos experiências tristes e soturnas. Já pensaram que a escuridão pode ser um bilhete de ida para darmos asas à nossa imaginação? Ou que a quietude, tão necessária nos dias que correm cheios de ruído, nos ajuda a parar e a ver beleza onde nos esquecemos que ela existe?

Se ficaram intrigados, esta é a nossa proposta: vão visitar uma exposição de fotografia que parte do imaginário japonês e que se divide na apresentação de dois projectos fotográficos: Ana Botelho expõe o Silêncio das Sombras e Raúl Salas Gonzales Sombras Líquidas.

As duas exposições nascem do trabalho desenvolvido na Escola Informal de Fotografia do Espectáculo, coordenado pela fotógrafa Susana Paiva, durante o ano de 2017, com o tema luz e sombra. Os fotógrafos-alunos receberam muito material de reflexão para, nos seus processos criativos, pensarem nas suas abordagens. Ana Botelho e Raúl Salas fixaram-se no livro Elogio da Sombra, de Junichiro Tanizaki – cuja leitura aconselhamos! – e decidiram montar esta exposição em conjunto. No fundo, o ponto de partida é o mesmo: o significado estético da sombra na cultura japonesa. O resultado é que é bastante diferente. 

Ana Botelho é uma fã incondicional de jardins e achou interessante o facto da cultura japonesa, que também nos remete para o grande imaginário e sedução dos meticulosos jardins japoneses, privilegiar a sombra. No Japão, tanto nos grandes templos como nas casas particulares, os objectos mais importantes (imagens, arranjos de flores, pinturas, etc.) são colocados em nichos ligeiramente alteados. Estes locais especiais ficam sempre na penumbra – a escuridão guarda verdadeiros tesouros, ainda que simbólicos.

Em A Sombra do Silêncio, Ana partiu destes pressupostos para estudar a relação entre os jardins e obras de arte – coisas não-vivas, estáticas. O Jardim da Sereia combina os elementos ideais já que acolhe as esculturas da autoria de Rui Chafes. O resultado é uma selecção de 20 imagens que abordam a dualidade jardim/obra de arte e que nos vão contando, pela lente da autora, como vive a sombra, em vários locais do jardim e a várias alturas do dia. E a sombra parece andar de mãos dadas com o silêncio, talvez pela expectativa que as obras do escultor criam no jardim.

O trabalho de Raúl Salas apresenta, em formato vídeo, uma série de imagens que foram captadas por mero acidente. Em 2009, o autor fotografou a costa alentejana, atraído pelas interessantes formações geológicas mas o sensor de luz da máquina fotográfica estava estragado e o resultado foi a produção de imagens com cores falsas. Então, Raúl assumiu este erro para revelar pormenores que, de outra forma, não seriam perceptíveis. A sombra foi um ponto de partida para a imaginação. Às vezes é um pouco difícil perceber porque é que um espaço que parece vazio, cheio de sombra, sem luz, está cheio de beleza.

Sombras Líquidas é o resultado de um registo feito num ambiente litoral, ao pé da praia e do mar, preenchido por rochas e vegetação. Acompanhado por música de autoria de Rryuichi Sakamoto, a sequência de imagens obriga-nos a olhar de outra forma a paisagem vicentina que achávamos (re)conhecer.

Fica o convite para uma visita até à Casa da Escrita mas também um convite de visita ao Jardim da Sereia: escolham um banco de jardim e sentem-se a admirar, seja a sombra ou a luz, o silêncio ou os sons que vos rodeiam. Parar é importante.

Se a luz é fraca, que o seja, mas

afundamo-nos com delícia nas trevas e

descobrimos-lhe uma beleza própria. (J. Tanizaki)

ATÉ 30 JUNHO | SEG-SEX, 10H-12H30 E 14H-18H | EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA O IMAGINÁRIO JAPONÊS I … DA LUZ QUE HÁ NA SOMBRA, JUNICHIRO TANIZAKI

Casa da Escrita – R. Dr. João Jacinto, 8, Coimbra

Entrada gratuita

Contactos: 239 853 590

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