Com foca ou sem foca a Mata de Vale de Canas merece a visita

Se perguntarmos hoje a um jovem conimbricense se sabe o que é ir ver a foca em Vale de Canas, o mais provável é ficar a pensar como é que tal animal foi ter às colinas da Mata. A expressão era utilizada como praxe, para se referir aos namoros que aquelas árvores acolhiam. Era um dos motivos pelos quais a Mata era procurada, porque oferecia recantos com privacidade e ar puro, mas há muitos mais. Um deles é a diversidade da flora, que se deve a um passado de plantações e replantações.

No século XVI, Vale de Canas era uma Mata de vegetação espontânea e pertencia à Coroa Real Portuguesa. Era chamada de Mata do Rei. Entre 1866 e 1870, graças a Manoel Afonso D'Esgueira e ao Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, foi repovoada com várias espécies de plantas autóctones e exóticas (32 só de eucaliptos), vindas de países como França, Alemanha e Austrália. Foi daqui que saiu parte da madeira de pinheiro utilizada nas obras contra as cheias no Choupal.

Em 2005, incêndios devastaram 325.226 hectares de floresta em Portugal. O distrito mais afectado foi Coimbra, com 47.642 hectares queimados, inclusive em Vale de Canas. Desde então, a Mata encontra-se em recuperação, mas ainda podemos ver o que resta de um jardim de aromáticas e alguma diversidade das plantas introduzidas no século XIX.

A vista do miradouro dá para termos uma noção do que são os 16 hectares desta (re)florestação. Apesar das muitas espécies invasoras presentes, como a infamous mimosa, têm-se privilegiado as espécies autóctones, como castanheiros e carvalhos, e isso traduz-se no bom ambiente que a Mata emana.Vale de Canas é pródiga em árvores de elevada estatura, uma delas é um Eucalyptus diversicolor F. Muell, também conhecido como Karri, e tem 73 metros de altura. que lhe valem os títulos de maior árvore de Portugal e árvore mais alta da Europa. 

Para além da vegetação, há outros pontos a explorar na Mata Nacional como a Casa do Fogo, com o seu telhado em xisto, e a Estação Ferroviária, com o seu comboio feito de toros de madeira, que não nos faz viajar se não de forma imaginária. Se do ponto alto mais alto rumarmos pelo meio da vegetação em direcção ao Mondego, pelo lado oposto a Coimbra, começamos a ver a copa do gigante de que falámos. Quando o alcançamos, encontramos um antigo parque de merendas, onde podemos recuperar o fôlego para o regresso.

Quem gostar de caminhadas maiores, pode continuar rumo ao Mondego e visitar a povoação que dá nome à Mata: Vale de Canas. Para uma caminhada maior, sugerimos que aproveitem os trilhos entre a Mata e o rio, pelo meio dos eucaliptos. Sabemos que as áreas de eucaliptal são muito pouco desejáveis, por várias razões, mas a essência que libertam facilita a respiração e purifica o ar, o que torna a caminhada bem agradável. A tem muito para explorar e respirar, apesar de ainda precisar de uma grande recuperação e manutenção mas atenção, não se esqueçam...cuidado com a foca.

Coordenadas GPS: 40.209112, -8.377327

Texto: Inês Teixeira
Fotos: Inês Teixeira e Nelson Portela

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