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“Talvez seja isso que tenha de Coimbra em mim, a vontade de ser contra-cultura” – The Legendary Tigerman

Durante o último mês, pudemos segui-lo no Facebook, paragem a paragem, cama a cama de hotel, entusiasmado e enérgico como se para cada espectáculo guardasse um novo grito do Ipiranga. Por este país acima, The Legendary Tigerman e o seu gang – Paulo Segadões (bateria), João Cabrita (saxofone) e Filipe Rocha (baixo) – incendiaram palcos de Évora a Braga, e já depois de uma digressão em França.

Coimbra é a last but not least. Mais uma vez, quem compra bilhete pode trocá-lo à entrada por uma edição especial do grande protagonista desta história, MISFIT, o sexto álbum de originais do músico. Paulo Furtado regressa à terra a que já chamou casa três dias depois de ganhar, com Rita Redshoes, mais um Prémio Sophia para a Melhor Banda Sonora Original para o filme Ornamento e Crime. No meio da azáfama dos dias, entre camas desfeitas, o artista respondeu a algumas questões da Coolectiva, antes de voltar a pisar o palco do Teatro Académico Gil Vicente:

– Antes de mais parabéns pelo Prémio Sophia. Os prémios são sempre um reconhecimento e possivelmente um estímulo. Que papel é que o cinema tem na tua vida e qual é a sensação de agora fazeres parte também desse imaginário?

A música para cinema tem sido cada vez mais uma parte muito importante, mas talvez um pouco menos vísivel, da minha vida artística. Desde 2005 já fiz mais de 15 bandas sonoras, e para mim ter ganho já dois prémios Sophia em dois filmes diferentes é muito relevante, e importante, porque para mim é quase um prémio técnico, fazer música para cinema é algo muito diferente de escrever canções, o teu trabalho influencia e tem que dialogar directamente com o trabalho e arte de muita gente, desde o realizador, aos actores, direcção de fotografia, cenografia, guarda-roupa, etc. Tem que haver muito diálogo e estás ao serviço de algo maior, é um exercício intelectual e teórico muito grande. E claro que não existe realmente uma melhor banda sonora, mas ter sido nomeado já seria motivador, por si só.

HTBN-03

Com MISFIT aprofundaste de certa forma a relação com o rock, o cinema, a fotografia e o imaginário norte-americano. Termina em Coimbra a digressão nacional. Qual é a sensação, satisfeito? E por ser Coimbra, por com certeza aqui reveres amigos e lugares que foram importantes, como é fechar aqui este ciclo?

Estou muito feliz com esta primeira tour em Portugal, não imaginava que fosse correr tão bem. Os concertos têm estado cheios, o público tem sido absolutamente incrível e creio que eu e a banda estamos numa forma imbatível, e posso dizer sem falsas modéstias que estamos a fazer um concerto muito bom e único em Portugal. Fico feliz por fechar a tour em Coimbra, claro, pelos muitos amigos, mas a minha relação com Coimbra ainda não está totalmente resolvida, não saí exactamente em bons termos da cidade. Acreditei muito em Coimbra, enquanto vivi aí, e fiz muito pela cultura da cidade, ou pelo menos tentei fazer, e fui sentindo cada vez mais portas a fecharem-se. Os últimos anos que morei aí já foram muito difíceis. Mas também é bom tocar aí pelos inimigos e velhos do Restelo (não estando eles exactamente no Restelo!), é sempre bonito dar um abanão na cidade.

Tantas voltas e tantas vidas depois, o puto de Coimbra, que provavelmente aqui se sentiu pela primeira vez “desenquadrado”, esse puto ainda aí está? O que é que há de Coimbra nele?

Não sei o que há de Coimbra em mim, mas do puto há muito. Continuo a ser a mesma pessoa que não aceita um não, que trabalha de manhã à noite pelos seus sonhos, que vai inventando novos sonhos para alcançar, que se esforça para ganhar espaço para a sua arte, que se mantém independente. Coimbra sempre foi uma cidade opressiva e tradicionalista, que vive à sombra de uma universidade e de um hospital, que tem momentos um pouco mais felizes quando a universidade se abre mais aos cidadãos, mas felizmente sempre existiu um contra-cultura e uma resposta a isso. Talvez seja isso que tenha de Coimbra em mim, a vontade de ser contra-cultura.

The Legendary Tigerman

Saíram de Coimbra muitos “doutores” mas também muita vanguarda musical. Como é que vês a cidade agora, ainda a conheces? Achas que ainda pode sair daqui alguma coisa poderosa em termos musicais ou é preciso ir para Lisboa ou para fora e a cidade terá parado no fado de Coimbra e pouco mais?

Não tenho tido assim tanto contacto, mas pelo que sei há bandas, claro, as pessoas que faziam música há vinte anos continuam a fazê-la, e isso é bom. Mas não tenho sentido nenhum movimento novo e que de certa forma venha criar outro legado diferente daquele que os M´as Foice, Tédio-Boys ou Belle Chase Hotel tenham deixado. Seria importante que isso acontecesse e que houvesse uma renovação, isso está a acontecer em todo o Portugal e é muito bonito assistir a isso.

Escreve-se que Misfit marca o fim de The Legendary Tigerman no formato one-man-band. É verdade? O que é que podemos esperar a seguir, mais música, mais cinema, ambos?

Eu creio que dificilmente voltarei ao formato de one-man-band, o que não quer dizer que por vezes não o use. De momento estou a trabalhar em vários projectos de cinema, tanto como realizador como músico, e este ano iremos passar muitos meses na estrada, a tocar um pouco por todo o mundo, já temos mais tours marcadas e o disco tem tido um crescimento incrível ao vivo. E começo aos poucos a compor o próximo.

MISFIT tem como premissa inicial a história de um homem que se dirigia de Los Angeles a Death Valley, com o intuito de se perder no deserto e transformar-se em nada. A viagem deu origem ao filme Fade Into Nothing e o filme deu origem ao disco, gravado no mítico estúdio Rancho de La Luna, no deserto californiano de Joshua Tree, co-produzido por Johnny Hostile e masterizado por John Davis, que trabalha com nomes como Nick Cave, Royal Blood, Led Zeppelin. Para trás ficam Naked Blues, Fuck Christmas I Got The Blues, In Cold Blood, Masquerade, o revolucionário Femina e True, já como The Legendary Tigerman. Ainda mais para trás os Tédio Boys e Wraygunn. As próximas paragens do músico influenciado pelos blues, punk e rock são, em Maio, Montpellier, Perpignan, Trets, Capdegnac, Montluçon, Belfort, Laval, Paris, Estrasburgo, Londres, Nantes e Loumarin. No Verão vai andar pelos festivais, pelo menos o Vodafone Paredes de Coura já está confirmado.

 

29 Março  | Auditório TAGV  | Coimbra
Bilhetes disponíveis na Bilheteira Online
Início do Espectáculo: 21h30
Primeira parte pelo músico Sean Riley
Preço: 14€ (inclui CD MISFIT)

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